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A função social das televisões de proximidade. Por um
modelo de comunicação alternativo
Pedro Coelho
Jornalista da SIC e investigador
E-mail: pedrocoelho@sic.pt
Para Jurgen Habermas, a possibilidade de romper com o determinismo social
a que o espaço público parece condenado reside na acção
comunicativa, na capacidade de comunicar, transformando-se, a
comunicação, numa força produtiva geradora de integração
social e, simultaneamente, guardiã da própria democracia.
Através da comunicação, reconhece Habermas, é possível
dirimir questões sociais controversas de forma racional, com vista a
atingir o interesse comum. O público tem o poder de "demonstrar como
é possível'', em sociedades como as nossas'', mesmo condicionado
"pelas organizações que o escravizam'', conquistar "um processo
crítico de comunicação pública'' (1992: 176 - 178, 180).
Os meios de comunicação social deveriam ser os instrumentos
amplificadores dessa acção comunicativa, dessa interacção
que, permitindo a progressão do homem, permitiriam a progressão do
espaço público. Contudo, como reconhece Wright Mills, a eles se deve
não a ampliação das discussões racionais de públicos
específicos, mas a transformação destes "num grupo de
mercados'' (1981: 364). Por isso, ao mesmo tempo que transformam os
receptores em agentes que promovem a preservação dos valores que defendem e
que apenas contribuem para a manutenção do status quo, os meios de
comunicação social são, igualmente, pilares da sociedade de
massas.
Na investigação que conduziu à elaboração da nossa
dissertação de mestrado optámos por trabalhar uma dimensão
mais específica de espaço público, o espaço público de
proximidade (local ou regional) e, assinalando a relação que este
estabelece com os meios de comunicação social locais e regionais,
procurámos compreender em que medida estes se constituem, ou poderão
vir a constituir, como pilares refundadores desse espaço público.
A análise realizada levou-nos a concluir que a ideia de um "local''
romântico, um local puro, pilar da democracia e lugar de
refundação do próprio espaço público não tem
concretização prática e os meios de comunicação social
que existem nessas comunidades de proximidade contribuem essencialmente,
pela forma como orientam a sua acção, para acentuar as fragilidades
do local. Como reconhece Dominique Wolton, o local não tem esse
"perfume de pureza virginal'' (2000: 89, 90) e os meios de
comunicação social locais e regionais, enquanto não conseguirem
libertar-se de um conjunto de marcas negativas que os caracterizam, não
poderão contribuir para a refundação do espaço público.
Neste sentido, caracterizámos o poder das elites locais nos espaços
públicos de proximidade, a forma como elas tentam impor aos elementos de
determinada comunidade um "consenso'' socialmente integrador que na
prática resulta num falso consenso por ser imposto e não fruto da
discussão, do debate e da acção comunicativa. Essa
imposição, ao mesmo tempo que contribui para a manutenção do
estado das coisas e, consequentemente, para a eternização das elites
no poder, silencia o conflito e as opiniões marginais de todos os que
não se revêem na alegada opinião dominante. Os meios de
comunicação social locais e regionais são cúmplices desta
estratégia das elites, veiculando a opinião dominante, silenciando o
conflito, impedindo a participação, controlando as discussões
públicas na medida em que apenas convidam para o debate, quando o
convocam, os que não se opõem às elites; fazem-no em nome da
própria sobrevivência, uma vez que, nas pequenas comunidades, as
elites políticas e económicas disponibilizam, mesmo indirectamente,
os instrumentos que possibilitam a sobrevivência desses meios de
comunicação social. Referimo-nos a empresas economicamente
frágeis, com profissionais sem formação académica
específica que, na sua maior parte, nem exercem a profissão de
jornalista a tempo inteiro, acumulando-a com outras actividades
profissionais, com vínculos precários ao jornal ou à rádio,
parcos salários e, por tudo isto, reféns de uma política
editorial assente em critérios económicos que, na maioria dos casos,
como referimos, apenas garantem a sobrevivência desses meios.
Mesmo que o jornalista queira libertar-se deste falso consenso, o conflito
não serve aos proprietários destes meios de comunicação
social e os profissionais, em nome da manutenção do posto de
trabalho, acomodam-se, conformam-se. Tornam-se, nestes casos, muitas vezes
reféns de uma proximidade demasiado próxima relativamente aos representantes da elite decisora, por
frequentarem os mesmos cafés, os mesmos círculos e, desta
proximidade, resultar o receio de afrontar as elites e as opiniões por
elas veiculadas.
Para ultrapassarmos os obstáculos verificados na inter-relação
entre os meios de comunicação social e o espaço público de
proximidade, que origina espaços públicos deformados, uma vez que,
como assinalam Philippe Le Guern e Pierre Leroux "o espaço público
não é um lugar abstracto de consensos democráticos ideal, mas um
espaço de conflito onde se exprimem relações sociais de
desigualdade e de dominação'' (2000: 160), torna-se necessário
desenvolvermos um modelo alternativo.
Na elaboração desse modelo confrontámos o nosso objecto de
trabalho com um conceito que não vimos corroborado na prática, mas
que procurámos explorar em termos das suas possibilidades de
concretização. Referimo-nos à televisão de proximidade,
aquela que emite conteúdos produzidos dentro de determinada comunidade e
a ela relativos: entre a televisão e os seus destinatários
estabelece-se um pacto comunicacional, um acordo, que assenta a sua base na
vontade comum de progresso e desenvolvimento da comunidade. O instrumento
desse pacto é, de facto, os conteúdos emitidos por estes canais,
definidos a partir dos problemas comuns da comunidade e susceptíveis de
promoverem a participação dos destinatários nos debate e
discussões suscitados pela emissão desses conteúdos.
Escolhemos para este desafio a televisão de proximidade pela elevada
taxa de penetração deste medium no tecido social, sobretudo nas regiões
do interior, as que serviram de base à nossa pesquisa na
dissertação de mestrado; a elevada propensão para o consumo
televisivo proporciona a este medium possibilidades acrescidas de intervir no plano
da acção comunicativa e, simultaneamente, como instrumento decisivo
de reforço da identidade e da coesão entre os membros de determinada
comunidade.
A especificidade do jornalismo praticado nestas televisões advém,
sobretudo, da necessidade de esse pacto não reflectir a tal proximidade demasiado próxima de que
falávamos, no sentido em que a vontade comum, demonstrada pelos meios de
comunicação social, destinatários/cidadãos e elites, de que
a comunidade progrida e se desenvolva, rejeite a institucionalização
da promoção de um falso consenso. Pelo contrário, a estas
televisões de proximidade, e ao jornalismo de proximidade nelas
praticado, devem servir de orientação os princípios básicos
do discurso jornalístico, nomeadamente a obrigação de dar voz a
todos os implicados no acontecimento, o que supõe, a integração
das opiniões marginais e de conflito.
A formação específica que se reclama para este jornalismo
advém, igualmente, da necessidade de os seus profissionais estarem
simultaneamente envolvidos na vontade comum de fazer progredir a comunidade,
mas sem perderem o distanciamento crítico que os coloca no papel de
mediadores do espaço público e os transforma em agentes formadores
de uma opinião pública critica e esclarecida que seja, por isso
mesmo, vinculativa da vontade geral.
Desta forma, a televisão de proximidade e os agentes que a promovem
desempenham uma função social. Assumimos, como Blumler e Gurevitch
que a função social dos meios de comunicação, neste caso das
televisões de proximidade, lhes é reconhecida quando estes media se
transformam nos vigilantes do espaço público, no sentido em que
fiscalizam o poder e os seus representantes, criticando-os, se tal for
necessário, ou iluminando o caminho de todos os que participam nesse
exercício. O cumprimento dessa função social determina,
igualmente, que, ao mesmo tempo que esses media dotam os cidadãos dos
instrumentos que lhes permitem questionar a política e os
políticos, favorecem a participação desses destinatários no
processo de tomada de decisão, contribuindo para atenuar, por isso
mesmo, o fosso que os separa da elite.
Uma televisão de proximidade com esta missão social justifica o
investimento do Estado, pois assume-se, claramente, como um agente
directamente implicado no processo de desenvolvimento regional. Sem esse
esforço do Estado, as regiões pobres, ou em vias de desenvolvimento,
onde o mercado é frágil e a sociedade civil não dispõe de
uma massa crítica que promova a interacção dos seus membros de
forma a que, em conjunto, se apliquem no processo de desenvolvimento da
comunidade, ficariam excluídas do espaço de comunicação, e
assim desta fundamental alavanca social de desenvolvimento.
Porque nenhum sistema é perfeito existe o risco de o projecto se tornar
excessivamente dependente do poder político, permitindo o controle dos
conteúdos de uma forma que poderá ameaçar o cumprimento da sua
função social. Torna-se, então, indispensável um organismo
fiscalizador, representativo de todas as entidades regionais e das diversas
forças políticas e sociais locais, para contrabalançar esse
efeito. Caberia a esse organismo a nomeação dos gestores
públicos do canal e a consequente fiscalização dos seus actos.
No fundo o que aqui se perspectiva é uma televisão assumidamente
como projecto regional, envolvendo todas as entidades da região, e com
todas elas assumindo parcerias e criando sinergias. O modelo de
televisão adequado às regiões em vias de desenvolvimento deve
partir de uma base, e essa base é o que existe na região, ou seja, o
conjunto de agentes directa e indirectamente ligados ao sector audiovisual e
igualmente implicados no desenvolvimento da região. Miguel de Moragas,
arquitecto desta rede de complementaridades, inclui "a Universidade, a
imprensa regional, os teatros, as sociedades desportivas, as
administrações públicas regionais relacionadas com a cultura,
com a juventude, com a educação, etc.'' (in Vacas, 1999: 737). Essa
rede pode, em nosso entender, ser reforçada, se pensarmos no caso
português, com outros organismos produtores de cultura como os
cine-clubes locais, as escolas em geral e não só a Universidade, as
sociedades recreativas, os organismos municipais dependentes da área
cultural das autarquias, a(s) igreja(s), os movimentos sociais. Mas este
envolvimento total da região implica que alarguemos o leque até aos
organismos produtores de riqueza, as empresas, o sector industrial e
também aos representantes políticos locais, os partidos, os
sindicatos e as associações.
Gerir, ou arbitrar como competiria ao Estado, esta panóplia de
interesses, revelar-se-á, naturalmente, uma tarefa extremamente
ambiciosa e de difícil concretização, podendo, contudo, ser
facilitada pelo facto de todas as entidades estarem, à partida,
motivadas por um objectivo comum, o desenvolvimento da própria
região. Tal pressuposto leva-nos a concluir que em nome de valores mais
elevados, como seja o futuro da própria comunidade, essas entidades
directamente implicadas na televisão, acreditando no papel do canal na
promoção da comunidade, poderiam, em nome desse sucesso colectivo,
dirimir questões controversas facilitando a acção fiscalizadora
do Estado e, consequentemente, a missão da própria televisão.
Algumas entidades teriam, neste processo, um papel necessariamente mais
importante do que outras, mas a participação de todas, sem
exclusões, em nome da região é um desafio que as regiões
menos desenvolvidas, ou em vias de desenvolvimento, não podem desprezar.
Depois do Estado, a Universidade seria a outra instituição com
maiores responsabilidades: primeiro na definição, depois na
criação e consolidação do projecto.
Em Portugal, os cursos universitários na área das Ciências da
Comunicação e do Jornalismo estão suficientemente
descentralizados para pensarmos numa rede nacional de suporte das futuras
televisões de proximidade. Se a criação de televisões de
proximidade de âmbito regional em Portugal, as únicas que dada a
dimensão do país seriam socialmente viáveis, fosse uma aposta
política, deveria o Estado associar-se às universidades no sentido
de a rede descentralizada de cursos na área em causa ser esse tal
suporte da formação dos quadros da televisão, ao nível da
produção de conteúdos, da experimentação tecnológica
e da introdução das novas tecnologias. Reforçando, inclusive,
estes canais as ofertas de emprego para os recém-licenciados,
contribuindo para que os mesmos se fixassem na região.
Não existindo ainda em Portugal uma formação universitária
específica na área do jornalismo de proximidade, por se entender
que este não é, regra geral, suficientemente profissional para
atrair jornalistas com essa formação académica específica,
mas apostando o actual governo no reforço da
formação profissional nos órgãos de comunicação
social de proximidade, acreditamos ser a Universidade e não o CENJOR
(Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas),
entidade que ministra cursos breves e práticos nas diferentes
especialidades do jornalismo, como pretende o actual executivo, a entidade
melhor apetrechada para formar esses profissionais. A Universidade teria,
naturalmente, que adaptar-se a esse objectivo, devendo a componente
teórica, essencial na formação de um profissional de
comunicação, ser complementada com um laboratório de
experimentação jornalística criteriosamente montado e
apetrechado, e com disciplinas teórico-práticas específicas na
área do jornalismo de proximidade - que como já aqui defendemos
é um jornalismo especializado a requerer, por isso mesmo,
formação académica específica.
Teríamos, ainda, todavia, de percorrer um longo caminho, uma vez que a
Universidade, mormente os cursos de Ciências da Comunicação,
mantêm-se algo distantes desta realidade. Esta conclusão resulta do
conhecimento privilegiado de que dispomos sobre a formação
prática ministrada pelos estabelecimentos de ensino universitário
com cursos nas referidas áreas, aos seus licenciados.
Assim, em Julho de 1992, quando iniciei a função de jornalista da
SIC, comecei a acompanhar alguns estagiários que, ao abrigo de
protocolos assinados entre esta televisão e as universidades e os
institutos politécnicos onde são ministrados cursos da área da
comunicação e do jornalismo, nela efectuaram os seus estágios
curriculares. Entre Setembro de 2001 e Janeiro de 2003, na função de
editor de sociedade, acompanhei mais de perto uma dezena de estagiários
que, ao longo desses 15 meses, fizeram o seu estágio na editoria por mim
supervisionado. Nessa fase elaborei um programa específico de
aprendizagem para cada um dos estagiários e, no final, sempre que me foi
solicitado pelos estabelecimentos de ensino, elaborei um relatório que
atestava sobre a evolução do formando. Nenhum dos dez casos aqui
referidos, alunos da Universidade do Minho, da Universidade Nova de Lisboa,
do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, da
Universidade Católica de Lisboa, da Universidade Lusófona de Lisboa,
da Escola Superior de Jornalismo do Porto e da Universidade de Direito de
Lisboa, possuía, quando iniciou o estágio, um conhecimento
prático que lhe permitisse redigir uma notícia de acordo com as
regras básicas da metodologia jornalística. Em termos práticos
não existia qualquer diferença entre os licenciados na área de
comunicação e jornalismo e a licenciada em direito. Quando
confrontados com o suporte específico da televisão associado ao
jornalismo, o grau de desconhecimento revelava-se ainda superior.
Os currículos académicos valorizam, sobretudo, a componente
teórica na área das ciências humanas e das ciências da
comunicação, comprovadamente essencial para o exercício da
profissão de jornalista, mas desvalorizam a formação prática
na área profissional que, afinal, a maior parte dos alunos que escolhe
estes cursos pretende seguir, o jornalismo. Ainda que esses currículos
incluam cadeiras específicas na área do jornalismo, essas
disciplinas são normalmente ministradas por professores convidados,
jornalistas na sua maior parte, a quem falta, por um lado, método de
trabalho académico e, por outro, tempo e vontade de dedicação.
Nestes casos, a passagem pelo mundo académico significa apenas uma linha
acrescentada nos respectivos currículos profissionais. Sem qualquer
ligação ao mundo académico, estes professores/jornalistas
raramente conseguem desenvolver um trabalho sério.
A Universidade precisa de repensar os seus programas e reforçar o ensino
da componente prática em ateliers academicamente supervisionados. O
jornalismo é uma disciplina que os desafios do nosso tempo obrigam, cada
vez mais, a que seja ministrada exclusivamente pela Universidade e não
por institutos profissionais como o referido CENJOR, organismo vocacionado
para pós-formações práticas altamente especializadas, ou
para acções de reciclagem, mas não para a formação de
base numa das mais sensíveis áreas de compreensão e de leitura
do mundo.
Acreditamos que está ultrapassada a hora de semelhante desafio ser
aceite, contudo nunca é demasiado tarde para reconhecermos e assumirmos
os erros do passado.
Não tendo ainda o país abraçado esse outro desafio, que o poder
político tem considerado mera aventura, da televisão de
proximidade, admitimos que quando esse momento chegar a Universidade
terá de estar preparada para ser um dos seus pilares.
No trabalho que desenvolvemos, com vista à elaboração da nossa
dissertação de mestrado, analisámos a realidade espanhola em
matéria de proximidade televisiva, não apenas pela proximidade
geográfica, mas, principalmente, por esta ser uma das realidades a
suscitar maior empenhamento analítico dada a sua diversidade e riqueza
relativamente a outros países.
A nossa conclusão aponta para o incumprimento pelos 10 canais
autonómicos públicos que começaram a surgir em Espanha em 1985,
de alguns dos objectivos que estiveram na base da sua criação. Mesmo
admitindo que alguns tenham conseguido promover a recuperação das
línguas próprias das respectivas regiões autónomas onde
foram implantados, País Basco, Catalunha, Galiza, Valência,
regiões cujo futuro das respectivas línguas, antes da autonomia e
no tempo de Franco, chegaram a estar ameaçadas, a nossa análise
permite-nos concluir que nenhum destes canais (a excepção será a
Telemadrid, a televisão da comunidade madrilena, muito virada para a
informação local e para a transformação em notícia dos
problemas que afectam a região) cumpre uma verdadeira função
social. Antes se transformaram em estruturas pesadas para os respectivos
orçamentos regionais, que as suportam quase inteiramente, sem que desse
esforço financeiro resulte qualquer contrapartida social, uma vez que,
em vez de emitirem uma programação alternativa, virada para a
região, para os seus problemas e para a sua solução, estas
televisões concorrem directamente com os canais nacionais, mergulhando,
quase todas, na mesma espiral de custos da TVE. As televisões privadas
espanholas, apenas 3 canais num universo de 13, a emitirem desde 1990,
poderão, igualmente, estar reféns da lógica do mercado mas, ao
contrário das autonómicas, não custam dinheiro aos
cidadãos.
Miguel de Moragas e Carmelo Garitaonandía consideram que as
televisões autonómicas espanholas "não satisfazem nenhuma
necessidade social'' nem "preenchem nenhuma função básica ou
necessária nas nossas democracias'' (1995: 15).
Portugal e a Finlândia são os únicos dois países da
União Europeia que não promoveram a regionalização da
televisão ou sequer criaram condições políticas, aprovando
legislação, para que o mercado possa optar por avançar nessa
matéria.
Ao longo dos anos, e sobretudo durante toda a década de 80, assistimos
apenas a efémeras emissões clandestinas. Um dos elementos mais
significativos da história dessas emissões de televisão
clandestinas é, a par do seu amadorismo e voluntarismo, a pesada e
constante mão fiscalizadora e repressiva do Estado.
Mais do que a existência em Portugal de uma pressão social
reivindicativa de uma televisão mais próxima das pessoas, que a
história tem, aliás, provado não existir, a descrição
deste fenómeno clandestino demonstra que, na maior parte dos casos, foi
o acesso facilitado à tecnologia, mais o espírito de aventura e a
vontade de mergulhar num universo que a legislação tornava
proibitivo, que pôs no ar estas emissões "pirata''.
Os casos de maior sucesso, como o da Televisão Regional de Loures
(Janeiro de 1986), que chegou a ser recepcionada, de acordo com os relatos
da imprensa, por 300 mil pessoas, emitiam sobretudo conteúdos
generalistas: filmes, concursos, telenovelas da RTP, etc.
Não se trata, portanto, apenas do exercício clandestino de uma
actividade, os conteúdos que assinalavam esse exercício, cópias
de filmes ainda em cartaz que essas televisões emitiam para os
respectivos auditórios, episódios de telenovelas da RTP gravados e
posteriormente transmitidos em alguns desses canais "pirata'', eram
igualmente ilegais. Residia, contudo, nestes conteúdos clandestinos o
sucesso dessas emissões; terão sido raras as incursões destes
canais nas temáticas de proximidade e nem essa parecia ser a
ambição dos seus promotores. Este exercício lúdico da
clandestinidade não terá servido para assinalar nenhuma marca
positiva que justificasse a existência desses canais.
Pelo contrário, dos exemplos que analisámos na nossa
dissertação, realçamos as experiências concretizadas em
Abrantes e no Porto, pela TVA (Outubro de 1986) e pela TVN (Novembro de
1985), respectivamente. Ambas terão sido motivadas pelo cumprimento de
pacto de proximidade com a comunidade. A análise que fizemos no nosso
trabalho dos conteúdos da emissão da TVA reflecte isso mesmo, e os
relatos da imprensa relativos à TVN assinalam, entre os seus promotores,
figuras com forte ligação à região e preocupadas com a
preservação e renovação da identidade regional, podendo a
televisão ser o veículo desse processo.
A mão fiscalizadora do Estado reprimiu umas e outras sem critério,
limitan- do-se ao cumprimento da legislação vigente. O Estado
preocupou-se, pois, em criar e consolidar um aparelho repressivo, os
Serviços Radioeléctricos de fiscalização, e nunca promoveu a
análise distanciada dos conteúdos em causa nem do papel que a
emissão desses conteúdos poderia ter no desenvolvimento das
respectivas comunidades.
No trabalho de campo que fizemos no processo de elaboração da nossa
dissertação de mestrado analisámos igualmente a realidade
portuguesa, através do estudo das emissões da RTP em Évora, no
tempo em que ao serviço público de televisão era consentido um
desdobramento das suas emissões em sete programações
autónomas, para o Alentejo, através da referida RTP Évora,
grande Lisboa, grande Porto, Algarve, Coimbra, Bragança e Castelo
Branco. Essas emissões, iniciadas em Março de 1997, pelo governo
socialista, foram encerradas em Janeiro de 2002, pelo executivo de
coligação PSD/PP, por razões financeiras.
Estes sete canais emitiam, na fase da sua criação, cerca de 13
minutos diários de emissão autónoma, imediatamente antes do
Telejornal das 20 horas.
Na RTP Évora trabalhavam, então, 15 pessoas, 14 jornalistas, todos
polivalentes, uma vez que editavam as respectivas reportagens, alguns
apresentavam rotativamente o bloco informativo diário e estavam
preparados para exercer funções de realização, e 1
administrativo.
O coordenador do centro era um jornalista em final de carreira, António
Luiz Rafael, que impunha ao centro uma linha editorial que o ausentava do
tratamento de temas polémicos. O objectivo do centro, de acordo com os
relatos dos seus jornalistas, complementado pela análise que fizemos da
primeira semana de emissões, consistia em dar do Alentejo uma visão
"cor-de-rosa'' que não afrontasse os poderes regionais nem os
representantes do poder nacional na região. Os temas políticos
eram, por isso, sistematicamente afastados dos blocos informativos
diários.
A linha editorial do Centro regional era moldada pela vontade assumida de a
emissão transmitir aos seus destinatários uma imagem de
"consenso''; dessa imagem resultava um compromisso das emissões com a
manutenção das elites no poder e consequentemente do estado das
coisas. As polémicas foram evitadas até nos casos em que eram
evidentes. Acreditamos que o único caso polémico que o bloco
informativo noticiou, um desastre ambiental no rio Caia, tenha sido, pela
sua importância, tema de destaque nacional o que desde logo tornaria
demasiado suspeita a sua omissão no bloco regional.
Os entrevistados em estúdio, todos responsáveis directos de
instituições representativas do poder central, tirando o caso de um
popular, autor de um abaixo-assinado, que nos pareceu ter sido convidado
apenas para cumprir os 13 minutos do dia, ou, então, para suprir a falha
de um convidado institucional, moviam-se, sempre, com um grande à
vontade, quase ignorando as perguntas e as intervenções da
jornalista/pivot.
As causas do falso "consenso'', que resultava destas emissões, foram
igualmente identificadas por Philippe Le Gern e Pierre Leroux na análise
que fizeram da televisão local da cidade francesa de Angers. De facto,
como os autores concluem, "a partilha de valores comuns (...) conduz à
produção de uma representação pacificada do espaço
público. Ninguém tem verdadeiramente interesse em que este jogo seja
alterado''. A sobrevivência dos próprios medias locais também torna
"extremamente arriscadas (de todos os pontos de vista) as tentativas de
tratamento herético do espaço local'' (2000: 167). Assim, em nome do
"consenso'' silenciam-se os actores sociais cujas opiniões favorecem o
conflito.
Em nome desse "consenso'' e da pacificação, nos cinco blocos
analisados nunca foi dada voz a políticos de oposição, local ou
nacional, e nenhuma das notícias destacou acontecimentos
políticos. Le Guern e Leroux explicam que este distanciamento dos media locais em relação à política é sobretudo motivado
pelos riscos que a opção contrária poderia provocar: a cobertura
política promove o "nascimento'' de "numerosos conflitos de
interesse'' entre os actores sociais e os media locais preferem o "consenso'' em
vez do conflito, a pacificação em vez da polémica (ibidem).
Ao telespectador foi dada sempre uma visão parcial do acontecimento
sendo promovida a entidade, ou personalidade, que o dinamizava.
Nestes 5 blocos analisados verificámos que o jornalista se revelou autor
menor destes conteúdos, uma vez que tudo pareceu desenhar-se sem a
necessidade plena da sua intervenção. A notícia, quase sempre
descritiva, era naturalmente integrada num alinhamento que girava em torno
de um convidado que, no momento da entrevista, ocupava solitário o palco
para apagar todas as dúvidas que sobre si, ou sobre a
instituição que representava, persistissem.
As últimas 3 notícias de cada um dos 5 blocos eram, regra geral,
meras informações que poderiam ser captadas num qualquer folheto
turístico.
Assistimos, pois, a um claro apagamento do jornalista, a um conveniente
apagamento das polémicas, a uma notória valorização do
território e dos poderes que o representam.
Apesar desta análise crítica cremos que este bloco cumpria um papel
de relevo social importante a dois níveis: primeiro porque lançava,
para discussão, os problemas regionais que, embora esvaziados de
polémica, adquiriam um grau de visibilidade que, até ao arranque
destas emissões, nunca tinham tido; depois porque no Centro regional
trabalhavam jovens cuja participação na manutenção do estado
das coisas dependia, unicamente, do coordenador do Centro, podendo cessar
quando o coordenador abandonasse funções, o que, aliás, veio a
acontecer um ano após a entrevista que o mesmo nos concedeu.
Pior do que existir uma emissão regional com algum grau de fragilidade
é não existir qualquer emissão, e isso é o que,
infelizmente, hoje acontece.
Na Extremadura espanhola, a outra realidade social que nos envolveu no
trabalho de campo, concluímos, através da analise da televisão
local mais representativa, a "Telefrontera'', um canal hertziano de
Badajoz, que mesmo existindo as condições para que a estação
pudesse assumir-se como verdadeira alternativa e, consequentemente, cumprir
uma função social na região, a linha editorial impôs aos
conteúdos uma submissão quase absoluta ao mercado.
Do contacto que mantivemos com jornalistas e com o director e sub-directora
da estação, e na análise que fizemos de dois blocos informativos
considerados, pelos directores, uma referência em termos dos
conteúdos produzidos e emitidos pela "Telefrontera'', concluímos
que o espaço informativo se transformou num prolongamento da
estratégia comercial da estação. Nessa análise
verificámos que o conjunto de notícias produzido reflectia,
claramente, a anulação dos princípios básicos que regem o
discurso jornalístico, uma vez que omitia a audição de um dos
lados da notícia quando esta tinha mais do que um protagonista. Essas
notícias confundiam, igualmente, acreditamos que de forma deliberada,
informação com publicidade/propaganda, misturavam notícia com
opinião, salvaguardavam os interesses do grupo proprietário da
estação, o grupo Vocento, um dos grupos de comunicação
social mais importantes em Espanha, promovendo as suas iniciativas e
valorizando os seus efeitos.
Concluímos, portanto, que os conteúdos que a estação emite,
por serem definidos pelo mercado, não produzem qualquer mais valia
social, não cumprindo, estes blocos, a função prioritária
que, em nosso entender, uma televisão de proximidade deve cumprir. Ainda
que os conteúdos emitidos sejam de proximidade, a sua abordagem não
tem em conta o pacto de proximidade entre emissor e receptor, mas apenas os
interesses estratégicos do emissor.
Detectámos, ainda, a existência de erros formais e técnicos na
edição das notícias e reportagens emitidas, o que não
favoreceu a compreensão das mesmas.
BLUMLER, Jay G. e Gurevitch, Michael, "Political
Communication Systems and Democratic Values'', in The Crisis of Public Communication, London and New York, ed.
Routledge, 1995.
GARITAONANDÍA, Carmelo, Spá, Miguel de Moragas,
"Televisions in the Regions and the European Audio-Visual Space'', in
Garitaonandía, Carmelo, Spá, Miguel de Moragas, Descentralization in the Global Era - Televisions, in the regions, Nationalities and Small Countries of the European Union, London, ed. John
Libby, 1995.
HABERMAS, Jurgen, "L' Espace Public, 30 Ans Aprés'', in Quaderni, nº 18, 1992.
LE GUERN, Philippe, Leroux, Pierre, " Les Limites de L'
Espace Public Mediatisé: L' Exemple D'une Télévision Locale'',
in Hermès, nº 26, 27, Paris, 2000.
MILLS, C. Wright, "A Sociedade de Massas'', in A Elite do Poder, Rio de Janeiro,
ed. Zahar, 1981.
VACAS, Francisco, El Sector Audiovisual en Extremadura: por un Nuevo Modelo de Televisión Regional, Tesis Doctoral, Universidad Complutense de Madrid, Departamento de Comunicación Audiovisual e Publicidad, Madrid,
1999.
WOLTON, Dominique, "Le Local, la Petit Madelaine de la
Démocratie'', in Hermès, nº 26, 27, Paris, 2000.
Footnotes
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Referimo-nos ao governo de coligação PSD/PP (2002-2005) e ao
trabalho legislativo liderado pelo ex-secretário de Estado da
Presidência Feliciano Barreiras Duarte.
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