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A gênese do conceito de dispositivo e sua utilização nos
estudos midiáticos
Otavio José Klein
Universidade de Passo Fundo
E-mail: oklein@upf.br
O conceito de dispositivo já é largamente utilizado no campo das
ciências e nomeadamente nas ciências da comunicação. Neste
texto vamos tratar da gênese deste conceito, não explicitada pelos
autores que o utilizam nos estudos comunicacionais. Utilizaremos o conceito
de dispositivo destacando sua multidimensionalidade, a partir da visão
triádica de Peirce. Ainda oferecemos uma alternativa de abordagem
analítica para os estudos dos dispositivos midiáticos.
A utilização do conceito tem, em diferentes campos do conhecimento,
uma espécie de véu que cobre a sua gênese. A maioria dos autores
nas ciências da comunicação, por um lado, pressupõem a sua
origem e não a explicitam em suas elaborações. Por outro, o
conceito é utilizado, principalmente, na sua forma unidimensional. Por
grande parte dos autores que o utilizam nos estudos sobre os media, ele
é confundido como sendo algo estritamente técnico ou
tecnológico. Em outros o conceito deixa de ser
técnico-tecnológico, mas ainda aparece como sendo unidimensional,
destacando uma das outras dimensões. Ora ele aparece em sua dimensão
socioantropológica, ora se destaca como linguagem. Segundo Jairo
Ferreira (2006), essas dimensões aparecem isoladamente como
dimensões coladas ao operador semântico dispositivos. Nesta
perspectiva, queremos oferecer aqui uma compreensão multidimensional do
conceito, possibilitando sua mais proveitosa utilização nos estudos
dos dispositivos midiáticos. Finalmente, ainda, tentaremos construir uma
abordagem analítica que contribua para os estudos sobre a
televisão, o telejornal e dentro dele os diferentes formatos, mas
principalmente a notícia/reportagem.
Os media não se explicam somente através de sua tecnologia, nem
somente através da ação dos sujeitos envolvidos, ou tão
somente pela linguagem específica em cada um dos meios de
comunicação. Diante disso, buscamos caminhos que possam dar conta de
explicar o fenômeno midiático e os seus processos sociais em nossos
dias.
O ponto de partida para a compreensão do conceito de dispositivo
buscamos em Michel Foucault. Para ele, o dispositivo, consiste numa rede que
pode ser estabelecida entre diferentes elementos, tais como: o poder em
relação a qualquer formação social; a relação entre
fenômeno social e o sujeito; e a relação entre discurso e a
prática, as idéias e as ações, atitudes e comportamentos
(cf. POSTER, 2000, p. 80-81). Para o filósofo francês, o dispositivo
é um mecanismo de poder com multiplas dimensões em jogo e que para
ele podiam ser percebidas no panopticon . Deleuze diz
que um princípio geral de Foucault é: "toda a forma é um
composto de relacionamentos de forças'' (1987, p. 167). Assim os
dispositivos sociais se multiplicam em nosso meio.
Para Foucault, o dispositivo discursivo é um amálgama que mistura, o
enunciável e o visível; palavras e as coisas; discursos e
arquiteturas; programas e arquiteturas; formação discursiva e
formação não-discursiva. Dispositivos são, para ele,
máquinas concretas que com as relações que estabelecem e
misturam, geram sentidos na sociedade (cf. DELEUZE, 1987).
Em relação aos discursos na sociedade, Michel Foucault afirma que
existem procedimentos de exclusão e de controle (FOUCAULT, 1997) fazendo
com que os mesmos, só possam ser compreendidos em relação ao
meio em que se encontram. Para além disso, existem também os
procedimentos internos de seleção e controle, que deixam as suas
marcas. Nesse sentido, um determinado discurso, para ser compreendido,
necessita que seja explicitado o dispositivo que envolve os seus contextos e
seus códigos de linguagem.
Para Foucault o mais importante nos discursos é o fato de
constituírem os seus objetos. Eles são práticas que
sistematicamente dão forma aos objetos sobre os quais falam. A linguagem
é performativa, além de denotar e conotar . Em relação ao panopticon, uma norma
é imposta sem ser resultado da imposição da vontade de
ninguém. No dispositivo, entendido por Foucault, não contam as
ações individualizadas dos sujeitos envolvidos, mas sim as
ações relacionadas e os resultados do conjunto. Assim, as
ações sociais não podem ser compreendidas como dos
indivíduos, mas sim dos dispositivos, onde cada um opera uma parte do
conjunto de ações que o constituem.
O conceito de dispositivo na perspectiva de Foucault se aplica às
formações sociais, como é o caso do discurso social, amplamente
estudado por ele, onde estão implicadas diversas dimensões que devem
ser consideradas para a sua compreensão, pois são constitutivas do
discurso. Essa visão multidimensional também se aplica ao campo
comunicacional ou midiático, onde é preciso levar em conta a
multidimensionalidade para compreender os processos que se desenvolvem.
Na história dos estudos comunciacionais se manifestam diversas linhagens
de compreensão. Todas elas se constituiram com a pretensão de
explicar o fenômeno comunicacional, porém, acabaram destacando
alguma das dimensões em detrimento de outras.
O que buscamos fazer, agora é, através do conceito de dispositivo,
dar conta de múltiplas dimensões que operam e que devem ser
consideradas nas investigações dos processos midiáticos.
Os estudos de Daniel Peraya (1999) apresentam uma perspectiva teórica
que ultrapassa a unidimensionalidade do dispositivo midiático, ou seja,
acrescenta um passo importante numa perspectiva mais ampla. Sua proposta
para os dispositivos midiáticos é triádica, onde estão em
destaque a sociedade, a tecnologia e a linguagem. O dispositivo aparece como
um lugar das interações entre os três universos: uma tecnologia;
um sistema de relações sociais; um sistema de
representações. A proposta de Peraya se limita em destacar as
diversas dimensões, mas ainda com um sentido de fechamento. Não
reconhece que as operações que se dão no interior de cada uma,
já são, uma presença relacional das outras dimensões.
A teoria triádica de Charles Sanders Peirce é a base que buscamos
para compreender a multidimensionalidade dinâmica do dispositivo. Em sua
teoria geral dos signos o filósofo da lógica apontou diversas
tríades como forma de explicar os fenômenos na sociedade. A
primeira delas apresenta três categorias elementares: a primeiridade
(qualidade ); a secundidade (realidade da existência); e a terceiridade
(mediação, generalidade, representação e
interpretação). Entre as três, existe uma profunda
implicação, ou seja, a primeiridade está implicada na
secundidade e ambas na terceiridade.
Uma outra chave da teoria triádica de Peirce é revelada na
formulação da semiótica para a teoria social contemporânea,
onde "todo o significado consiste em um contínuo processo sígnico
de atos comunicativos orientados para fins últimos (...). Um
sígno consiste na representação triádica de algum objeto
para um signo que interpreta, ou interpretante'' (ROCHBERG-HALTON, 1986, p.
6).
Há ainda outra classificação triádica em Peirce, muito
simples. Trata-se dos símbolos, índices e ícones. Os
símbolos transmitem significados em razão de uma convenção
ou regra, exemplo disso são os simbolos lingüísticos. Os
índices transmitem informação ao serem modificados por seus
objetos, como exemplo, temos a biruta, que indica a direção do
vento. Os ícones transmitem informação ao incorporar
qualitativamente o seu objeto, exemplificando, temos a pintura que
representa a si mesma em suas próprias qualidades.
Portanto, a teoria triádica de Peirce é a multidimensionalidade em
relação. Ferreira (2006), afirma que a partir de Peirce, elas
atingem o nível de proposição lógica.
A proposta de abordagem que Jairo Ferreira faz em relação à
essas três esferas é que elas contingenciam, operando sobre as
outras dimensões, desde o momento que cada delas se configura como
sistema (portanto, operações próprias de autonomização
perante as outras esferas da experiência comunicacional) (2006, p. 5).
Nesta perspectiva o dispositivo midiático se compõe de um conjunto
de operações (técnico-tecnológicas, semio-linguísticas
e socioantropológicas), que constituem uma rede entre diferentes
elementos, ou uma meada num conjunto multilinear.
Segundo o nosso entender, o conceito de dispositivo, aplicado aos estudos
midiáticos, consegue abarcar melhor a sua totalidade e complexidade. Os
processos midiáticos só podem ser bem compreendidos em sua
complexidade se estudados na perspectiva das diferentes relações que
se estabelecem entre as diversas dimensões em jogo.
Nenhum fenômeno midiático pode ser bem compreendido se somente for
abordado na perspectiva unidimensional, ou seja, olhando apenas para os
aspectos e as operações técnico-tecnológicas, ou
únicamente a dimensão sócio-antropológica. Também
não poderão ser bem compreendidos os discursos midiáticos, se
forem estudados somente na perspectiva da linguagem, pois essa, por exemplo,
para ser compreendida, necessita no mínimo de duas dimensões que a
constituem. São elas, o código linguístico e a sociedade que o
constitui.
As diferentes visões epistemológicas no campo da comunicação
se desenvolveram a partir de acentos em alguma das três dimensões
citadas. Urge avançarmos nesta compreensão, utilizando as
formulações teóricas existentes para a compreensão da
complexidade do fenômeno midiático.
Alguns autores utilizaram o conceito dispositivo, em seus estudos,
estabelecendo uma relação entre algumas das dimensões propostas.
Destacamos aqui, José Luiz Braga (1994), Adriano Duarte Rodrigues
(2001), Maurice Mouillaud (1997) e Jacques Aumont (1995) que foram
analisados por Ferreira (2006) nesta perspectiva.
O conceito de dispositivo de conversação, utilizado por José
Luiz Braga (1994) é construído nas relações entre linguagem
e sociedade (interações e contexto). Os dispositivos conversacionais
são definidos aí como um conjunto de regras, modelos, roteiros mais
ou menos elaborados, "que não definem o conteúdo dos enunciados que
vão ser produzidos, mas fornecem as marcações para o trabalho de
cena''.
Outra apropriação do conceito de dispositivo multidimensional, é
aquela que é feita por Adriano Rodrigues (2001).Mesmo que partindo de
outras perspectivas teóricas, a elaboração de Rodrigues,
também acentua o conjunto de regras "de gestão'' das
interações (tomadas de palavra, réplicas, uso de mecanismos de
repetição, correção etc.). Trata de compreender a
"pragmática da conversação'', integrando a ela, os elementos
formais da linguagem. Em Rodrigues, o conceito integra as duas perspectivas
(linguagem e sociedade).
Uma terceira aproximação é feita por Maurice Mouillaud (1997),
dizendo que os dispositivos não são apenas aparelhos
tecnológicos de natureza material, nem um suporte inerte do enunciado,
nem sómente um contexto. Essa formulação permite ver uma
espécie de "acoplamento estrutural'' entre contexto, enunciado, suporte
e forma de inscrição, ou seja, entre dimensões que expressam o
que categorizamos como objetos centrais da comunicação midiática
- a sociedade, a linguagem e a tecnologia. Suas análises acentuam
relações entre operações técnicas e
semiolingüísticas, mostrando como cada movimento técnico no
jornal impresso (o nome, os títulos, as colunas, o uso de aspas, as
assinaturas, seções, editorias etc.), está acoplado a uma
operação semiológica. Talvez indicando a dificuldade teórica
e metodológica de integrar na análise dos meios, todas as
dimensões que sugere acoplada no conceito de dispositivos, a leitura
sócioantropológica fica, em Mouillaud, apagada.
O dispositivo para Jacques Aumont contempla a categorias
socioantropológicas (tempo e o espaço), diferenciando-as da
técnica (ações sociais reguladas), em interação com a
tecnologia, e, finalmente, realizando a discussão dessas últimas
dimensões no campo sócioantropológico (ambas como ideologia).
A partir disso podemos falar em três dimensões que abarcam, de certa
maneira as outras: sócioantropológica, semio-linguística,
tecno-tecnológica. A dimensão socioantropológica do dispositivo
midiático significa estar atento a tudo que é humano e social na
comunicação midiática e que participa do processo produtivo. Por
um lado, estão os sujeitos que são midiatizados, sua cultura, sua
vida, suas ações e suas instituições..., mas por outro,
estão os agentes midiáticos, sua formação, sua cultura e as
insituições midiáticas envolvidas.
Na dimensão semio-lingüística do dispositivo, são destaque,
as operações de linguagem que participam da midiatização, as
quais oferecem múltiplas possibilidades de articulação ou
desarticulação, bem como regras que criam significados por meio da
utilização de códigos e símbolos que são organizados a
partir dos enunciadores.
O dispositivo enquanto dimensão técnico-tecnológica é o mais
destacado nos estudos comunicacionais, especialmente quando se refere à
produção e circulação de imagens. O dispositivo, enquanto
técnica, diz respeito às operações realizadas, e enquanto
tecnologia, aos suportes tecnológicos, ou seja, as máquinas, os
equipamentos e instrumentos utilizados nos processos de comunicação.
Um dos autores que concebem o dispositivo nesta perspectiva é Charaudeau
(1997), para quem o dispositivo é a tecnologia enquanto
mediação, através da qual os meios (materiais significantes)
são colocados em relação aos suportes. Compõe-se dos
elementos materiais, ou seja, do suporte físico que carrega a mensagem,
é o quadro constituído pelo "conjunto das circunstâncias
materiais, presidindo a realização de todo ato de
comunicação e que, particularmente, para a comunicação
mediática, este quadro se compõe de um tipo de material, de um tipo
de suporte e de um tipo de tecnologia que agem como marcas'' (CHARAUDEAU,
1997, p. 199)
Para Ferreira (2006), só uma reflexão teórica e
epistemológica multidimensional, que tenha em conta idênticas
proporções entre as diversas dimensões, pode dar conta desse
lugar para além do descritivo. Ir além, significa identificar
movimentos dialéticos e interações entre diferentes
dimensões do dispositivo.
Nesta última parte do texto, utilizamos o conceito de dispositivo em sua
visão multidimensional, triádica para compreender a televisão, o
jornal televisivo e sua unidade principal, a notícia/reportagem. A
televisão, o telejornal e a notícia/reportagem, são
dispositivos midiáticos? Como se interrelacionam as várias
dimensões que os constituem?
A televisão é considerada por muitos autores um dispostivo
midiático, ou dispositivo audiovisual (cf. Machado, 2003). Seu destaque,
em grande medida, se deve por ser o dominante entre os demais media e como
tal "expõe a um grande perigo as diferentes esferas da produção
cultural, arte, literatura, ciência, filosofia, direito. (...) ela
expõe a um perigo não menor a vida, a política e a democracia''
(BOURDIEU, 1997, p. 9-10).
Para Pierre Bourdieu, autor do conceito de campo , a televisão é
um sub-campo do campo jornalístico, onde estão implicadas muitas
dimensões que participam do jogo midiático. Ela não pode ser
explicada por um materialismo simplista, como sendo determinada pelo fator
econômico. São muitas outras dimensões em jogo.
As preocupações do sociólogo francês, em relação
à televisão, vão no sentido de compreendê-la na sua
relação com os discursos sociais e a implicância disso em outros
campos. Aponta algumas questões importantes, tais como, a
importância da televisão, que não pode ser deixada de lado por
quem luta em nossa sociedade. Diante disso chega a dizer que "os que ainda
acreditam que basta se manifestar sem se ocupar da televisão correm o
risco de errar o tiro: é preciso cada vez mais produzir
manifestações para a televisão, isto é,
manifestações que sejam de natureza a interessar às pessoas de
televisão'' (1997, p. 29-30). Outra preocupação sua, diz
respeito a autonomia da televisão em relação à sociedade.
Afirma que existe uma autonomia relativa,que "se mede sem dúvida pela
parcela de suas receitas que provém da publicidade e da ajuda do Estado
(sob a forma de publicidade ou de subvenção) e também pelo grau
de concentração dos anunciantes'' (1997, p. 102-103).
Um dos temas aprofundados pelo autor foi a questão do simbolismo. Poder
simbólico, violência simbólica...são conceitos que se
aplicam também à televisão. Diz que a violência
simbólica "se exerce com a cumplicidade tácita dos que a sofrem e
também, com frequência, dos que a exercem, na medida em que uns e
outros são inconscientes de exercê-la ou de sofrê-la'' (1997, p.
22).
O autor volta a destacar a importância de compreender melhor a
televisão, pois se tem a impressão, diz ele, "de que os agentes
sociais (jornalistas....), tendo as aparências da importância,
da liberdade, da autonomia, e mesmo por vezes uma aura extraordinária,
(porém) são marionetes de uma necessidade que é preciso
descrever, de uma estrutura que é preciso tornar manifesta e trazer
à luz'' (1997, p. 54).
Esses pequenos trechos da obra de Bourdieu "Sobre a Televisão'' ajudam
a perceber que a compreensão da televisão deve necessariamente
passar por uma análise multidimensional, nomeadamente tais como: a
dimensão econômica; dimensão social (grupos sociais e
profissionais); dimensão simbólico-cultural. Essas dimensões
apontadas por Bourdieu, para compreender a televisão, enquanto um
sub-campo do jornalismo, são boas pistas para o estudo da televisão
na perspectiva do dispostivo.
O telejornalismo, estava pouco presente nos primórdios da televisão,
com os anos, porém, "a relação inverteu-se completamente, e a
televisão tende a tornar-se dominante econômica e simbólicamente
no campo jornalístico'' (BOURDIEU, 1997, p. 58).
Um viés de estudos existentes sobre o telejornalismo é a perspectiva
de gênero, onde se destacam os gêneros informativo e opinativo. O
gênero em televisão, deve ser compreendido como "um feixe de
traços de conteúdo da comunicação televisiva que só se
atualiza e realiza quando, sobre ele, se projeta uma forma de conteúdo e
de expressão - representada pela articulação entre
subgêneros e formatos, esses sim procedimentos de construção
discursiva que obedecem a uma série de regras de seleção e
combinação'' (Duarte, 2006, p. 22). Estes estudos, em linhas gerais,
buscam distinguir o telejornal dos demais gêneros, tais como a
ficção e reality shows.
Arlindo Machado (2003), em seu estudo sobre a televisão possui um
capítulo em que desenvolveu a idéia de polifonia. Segundo ele,
"sujeitos falantes diversos se sucedem, se revezam e se contrapõem uns
aos outros, praticando atos de fala que se colocam nitidamente como o seu
discurso com relação aos fatos relatados (2003, p. 104). A
construção dos enunciados no telejornal segue uma arquitetura de
apresentação "baseada em depoimentos dos sujeitos implicados no
acontecimento'' (MACHADO, 2003, p. 105). Machado fala num modelo padrão
de relato telejornalístico, dizendo que pode ser definido como
"jornalismo polifônico''. O telejornal é, nesse sentido "uma
polifonia de vozes, cada uma delas existindo de forma mais ou menos
autônoma e prescindindo de qualquer síntese global'' (2003, p.
107).
Quem buscou compreender isso a partir da literatura foi Bakhtin (1970) ao
analisar a presença das diferentes vozes nos romances do escritor russo
Dostoievski. Para ele "a pluralidade das vozes e das consciências
independentes e distantes, a polifonia autêntica das vozes o tempo
inteiro, consituem em efeito um traço fundamental dos romances de
Dostoievski'' (Bakhtin, 1970, p. 35). Segundo o lingüísita
"Dostoievski é o criador do romance polifônico. Ele elaborou um
gênero romanesco fundamentalmente novo. Isto fez com que a sua obra
não se deixasse enquadrar em esquemas já conhecidos e comuns da
história literária européia'' (Bakhtin, 1970, p. 35). Essa
compreensão, segundo João Carlos Correia, faz parte de um conjunto
de investigações que apontam para o recurso a diversos conceitos
introduzidos por Bakhtin, como sejam os de dialogismo e
heteroglossia (CORREIA, 2006, p. 217).
A recente publicação de uma série de pesquisas sobre o
telejornalismo, organizada por Alfredo Vizeu, Flávio Porcello e
Célia Mota (2006), destaca a importância de um impulso na
investigação sobre o telejornal "como o mais importante meio de
informação da população brasileira neste início de
século''. São vários estudos que demonstram filiações
teóricas diversas, que têm a preocupação de fortalecer a
investigação em torno do mesmo objeto, o telejornalismo.
Uma das abordagens que encontramos nos estudos do telejornalismo é o
desenvolvido por Aline Maria Lins (2006). Seguindo os passos teóricos da
Crítica Genética, descreve o processo de produção do
telejornal, com a preocupação voltada para as tensões, entre os
trabalhos de coleta e a edição do material. Ela afirma que o fazer
telejornalístico é um "processo como movimento, resultado de
relações e significações, que se estabelecem nos vários
momentos do seu percurso construtor''(LINS, 2006, p. 169). Trata-se de um
processo de produção do telejornal, (...) um ato comunicativo
complexo, compartilhado por vários autores em diferentes papéis e,
também, por vários leitores. Esse processo coletivo é
não-linear e permeado por diversas linguagens: a verbal, a visual e a
que denominamos sonora ambiental (música, ruídos, falas) (LINS,
2006, p. 174).
Um aspecto que Aline Lins (2006) chama a atenção no telejornal,
enquanto uma produção em processo, é a questão da autoria do
material no telejornalismo. Quem é o autor? É o jornalista? É a
equipe de edição? Ou será a instituição midiática?
Ela aponta para a autoria coletiva como solução para o
questionamento, coincidindo com outros pesquisadores.
Um grupo significativo de estudos trata das questões da linguagem nas
investigações em telejornalismo . Entre eles está o de Iluska Coutinho (2006) que analisa dois
telejornais na televisão brasileira. Esta percebeu a notícia
estruturada, principalmente, como um drama cotidiano. Segundo ela, isso
ocorre através de uma linguagem que valoriza, por um lado o conflito
social, mas também estabelece no texto, uma narração em
conflito. Partindo dos conceitos de drama e dramaturgia os textos são
construídos valorizando "a estrutura e o elemento dramáticos''
(COUTINHO, 2006, p. 102).
A forma de apresentar os dramas se dá também através da
construção de personagens, que se constituem como atores na
representação do real. O que mais se destaca são os papéis
de mocinho, vilão ou vítima. Essa predominância tem estreitas
ligações com o fato de que as narrativas, (...) trazem em si os
registros ou conexões com a já tradicional luta Bem-Mal e, na medida
do possível, utilizam-se da estória narrada para reforçar
valores morais e de conduta'' (COUTINHO, 2006, p. 121).
Coutinho (2006, p. 123) concluiu no seu trabalho que a dramaturgia se
instala no telejornalismo através de uma série de operações,
tais como: encenação; caráter espetacular da atuação dos
profissionais; organização das matérias editadas em texto e
imagem; o uso exacerbado dos recursos audiovisuais de `sobe som' e
`vinhetas'; tom emocional dos textos, especiamente o do apresentador; e o
encadeamento ou paginação da edição do telejornal.
Outros autores já fizeram um esforço de análise dos media na
perspectiva multidimensional. Refiro-me especialmente à dois deles,
Eliseo Verón e Adriano Duarte Rodrigues.
Entre seus diversos escritos sobre a comunicação e sociedade,
destacamos aqui dois textos em que o pesquisador argentido esteve
especificamente voltado para o telejornalismo. O primeiro deles é do ano
de 1983 - Il est là, je le vois, il me parle . Neste
trabalho, o autor diz que existe uma série de operações
discursivas, que definem o dispositivo de enunciação do jornal
televisivo. Para compreender o telejornal em sua estrutura e funcionamento
é necessário, segundo ele, compreender sua colocação entre
os suportes da informação e analisar as propriedades discursivas que
decorrem do suporte significante. Além disso, ainda deve se levar em
conta o contexto sócio-cultural onde se situam. Existem, portanto,
segundo o autor, diversas dimensões que dizem respeito à
especificidade do telejornal: os suportes, a estrutura dos discursos e o
contexto sócio-cultural.
Os discursos sociais não podem ser compreendidos somente a partir da
análise dos enunciados. Eles não são uma soma de atos de
linguagem. Por isso Verón, diz que os discursos sociais, em geral,
são muito importantes para compreender a construção do discurso
no telejornal. Ele destaca três fenômenos discursivos no telejornal
para mostrar que o discurso é mais que um amontoado de frases. Ele diz
que os "olhares'', a "voz'', e o "corpo'' são componentes importantes
para compreender o telejornal. Uma série de operações
discursivas são possíveis através dos "olhares''. Isso é
destaque, no telejornal, a partir de um apresentador que olha para os
telespectadores. Olhar para um papel e ler a informação, não
é a mesma coisa, do que falar para o telespectador, olhando-lhe nos
olhos. A voz do apresentador é importante para a fidelização do
telespectador, que se identifica mais com a voz, do que com a verdade ou a
seriedade das informações que comunica. Além disso, a imagem do
corpo é mostrada como o primeiro sentido no telejornal.
Neste texto, o autor aproxima a teoria triádica de Peirce, ao afirmar a
existência de três ordens fundamentais da significação que
transpostas para o suporte audiovisual, intervêm na construção
do jornal televisivo: a palavra, isto é a linguagem (símbolo); a
imagem, isto é a ordem da analogia (o ícone); e o contato, isto
é, a confiança (o índice).
O segundo texto sobre telejornal, de Eliseo Verón, é do ano de 1989.
Nele as suas preocupações são em relação aos "espacios
enunciativos del noticiero televisivo: um retorno del enunciado?''. Ao fazer
um balanço dos telejornais franceses, lança um olhar diacrônico
sobre eles e encontra três fases no seu desenvolvimento, que mostram a
hegemonia de diferentes elementos nas diversas fases de sua história. Na
primeira fase, é destaque o conteúdo e a oralidade como fatores
principais de credibilidade. A imagem do apresentador é fechada, com
grau zero de expressão, e as imagens externas, anteriores ao videoteipe,
eram poucas e sem edição.
Na segunda fase, Verón já descreve o apresentador que nos olha e nos
conta algo. O seu corpo é mais mostrado, com destaque para a sua
gestualidade. A tela se amplia e nela aparecem mais cores, luzes, sala e
outros personagens (especialistas e convidados). Em lugar do indicial, da
informação, passa a ter destaque o icônico, com a
ampliação do conteúdo da representação, que está a
serviço de uma relação com o telespectador. Os dispositivos de
contato, inclusive a instituição midiática, predominam sobre o
conteúdo.
Na terceira fase, há uma volta ao enunciado, principalmente nas
reportagens pré-elaboradas e pré-gravadas, que agora substituem o
enunciador que mantinha fora de si (na informação), a credibilidade
do noticiário. Segundo o autor, na fase atual, o noticiário vai
além da informação. Isso se dá, especialmente, a partir de
um procedimento de fundo semântico, onde a imagem perde seu peso
referencial (indicial), evocando o campo semântico designado pelo texto
que a acompanha. Para ele, "texto e imagem remetem um ao outro em um
equilíbrio semântico fechado e circular''(VERÓN, 2004, p 173).
Adriano Duarte Rodrigues também lança mão do conceito de
dispositivo ao falar do telejornal (1994). Para ele
os dispositivos que intervêm no processo enunciativo do telejornal
destinam-se a garantir ao seu discurso um reconhecimento universal, a
assegurar a sua validade para um público indiferenciado,
independentemente da experiência, das opiniões, dos interesses dos
indivíduos e dos grupos a que se destina. É esta
contradição que a estratégia enunciativa do telejornal tenta
gerir e resolver, criando um quadro enunciativo próprio, a que vamos dar
o nome de social, distinto do quadro enunciativo que delimita o horizonte
das relações intersubjetivas (1994, p. 148).
Segundo ele, são diversos os dispositivos que atuam no espaço de
interlocução e dos personagens que intervêm no processo
enunciativo de um telejornal. Entre eles, os que definem o discurso do
genérico, dos jornalistas, dos correspondentes, e dos convidados
eventuais.
O genérico é como a moldura - é o dispositivo que separa o
telejornal do restante da programação, dos comerciais. A música
utilizada no telejornal "além de exercer a função de
enquadramento (...) desempenha também um papel indicial: funciona à
maneira do toque da trombeta ou do clarim que o arauto fazia ecoar, do cimo
das ameias do castelo, para congregar os destinatários dos decretos
régios ou das notícias'' (RODRIGUES, 1994, p. 149).
Os jornalistas se utilizam de uma estratégia enunciativa muito
importante, que é a do apagamento sistemático das marcas da
enunciação, pelo uso da terceira pessoa gramatical. O dispositivo
lingüístico da não pessoa. Os correspondentes ocupam o lugar
dos jornalistas no momento da enunciação. Somente que para a sua
entrada no telejornal são convidados na primeira pessoa. Os convidados
não participam para dar sua opinião, mas sim para falar como
especialista ou como perito de algum assunto, ou como testemunho de
observadores privilegiados.
O jornalista no telejornal, também recorre ao `agenciamento dos fatos
através do trabalho de narrativização'. Para isso, emprega dois
dispositivos fundamentais: o emprego das categorias do tempo
lingüístico (passado, presente e futuro, a partir do
presente, mas também em relação ao que vem antes e o depois do
fato narrado) e o recurso à elaboração de personagens da
narração que consiste na conversão, tanto dos atores e dos
agentes, como dos enunciadores dos discursos relatados em personagens da
narração jornalística, em dramatis personae.
Considerando a notícia/reportagem uma unidade de destaque no dispostivo
telejornal, queremos agora apontar algumas pistas para formular uma
alternativa de abordagem analítica no estudo da mesma.
Em primeiro lugar, temos a convicção que o conceito de dispositivo
se aplica também para a abordagem científica da
notícia/reportagem, assim como, todas as demais unidades que
compõem o telejornal. Isso se deve, em grande medida, porque nela
estão presentes as três dimensões que apontamos, ou seja a
sócioantropológica, a semio-linguística, e a
tecno-tecnológica.
O caminho que propomos para a investigação sobre a
notícia / reportagem é a formulação de categorias
analíticas para cada uma das dimensões. Essas poderão ser
observadas, tanto através do acompanhamento das rotinas produtivas dos
profissionais, quanto na decomposição dos produtos veiculados pela
televisão. Ou ainda através da sua utilização numa mesma
investigação.
O esquema que propomos é uma aproximação ao que foi proposto por
Fouquier e Verón (1985) que buscam compreender os produtos informativos
da televisão, voltando-se para os mesmos e seu processo de
produção, atentos aos diferentes espaços (topologias) e tempos
diversos, onde se operam as ações produtivas no dispositivo. Segundo
eles, essas topologias comportam níveis, estratos, denominados de
"espaços'', porque se referem a lugares. São quatro os espaços
que possibilitam compreender as dimensões do processo de
construção dos enunciados: o "espaço-mundo'', o
"espaço-percurso'', o "espaço- -mediação'' e o
"espaço-canal'' (cf. FOUQUIER e VERÓN, 1985, p. 77-78).
O "espaço-mundo'' é o lugar da cena que a televisão nos dá
a ver. Ali prevalece a cena, que envolve "drama'', onde aparecem os
sujeitos envolvidos no acontecimento, que também operam e em
relação a eles operam os agentes midiáticos. O evento possui uma
amplitude maior do que aquela mostrada pela televisão.
O "espaço-percurso'' é aquele onde se manifesta um ponto de vista,
segundo uma cronologia, uma geografia e um ritmo. São destaque nesse
espaço os aspectos e os agentes que envolvem as operações para
capturar a imagem e a gravação de áudio. É nesse espaço
que é proposta ao telespectador uma viagem para o interior do lugar do
evento. O papel do operador de câmera é localizar aquilo que vai ser
visto, ou seja, os pontos visitados. Dizem Fouquier e Verón, que nesse
espaço predominam os observadores, não mais os observáveis.
O terceiro é o "espaço-mediação'', onde acontecem as
operações de edição e enunciação. Os agentes da
instituição operam textos e imagens na edição e na
emissão, aproximando a recepção ao acontecimento. Em alguns
casos, especialmente em emissoras menores, a edição é feita pela
própria equipe de reportagem, porém em outras instituições,
essa tarefa cabe a outra equipe especializada. O apresentador cumpre a
função de mediador, ora olhando para a cena, ora olhando para o
telespectador, situa o acontecimento no espaço e no tempo.
Os bastidores da produção são categorizados como
espaço-canal. Neste, a instituição agencia todo o processo, o
que é feito segundo as intenções, os motivos, os
princípios, as crenças e os valores em jogo.
Concluimos este trabalho com a reflexão de Ferreira (2006). Para ele,
só uma reflexão teórica e epistemológica sobre a técnica
e a tecnologia em relação com a sociedade e a linguagem, pode dar
conta desse lugar para além do descritivo, ou de uma sutil
apropriação, pelas ciências da linguagem, do que é descrito
empiricamente como "telejornalismo''. Esse ir além, propicia a
identificação de movimentos dialéticos em que um pólo sucede
o outro na dominância, produzindo um sentido específico do
acoplamento, inexistente nas operações de cada pólo
isoladamente.
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Footnotes
![[*]](../_img/footnote.gif)
- O panopticon é para Foucault uma
metáfora aplicada ao mecanismo de vigilância nas prisões. Para
Mark Poster, "o panopticon não consiste apenas no guarda da torre, mas na
totalidade do discurso/da prática da prisão com vista à
constituição do sujeito como criminoso e à sua
normalização assente num processo de
transformação/reabilitação'' (2000. p. 100).
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Máquinas abstratas são os
diagramas. Trata-se do mapa de relacionamentos de forças, mapa da
densidade, da intensidade, que procede por ligações primárias
não localizáveis e que passa a cada instante por todo e qualquer
ponto, ou antes por toda e qualquer relação entre um ponto e outro
(cf. Deleuze, 1987, p. 61).
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Idéia
recordada por Poster (2000. p. 104)
![[*]](../_img/footnote.gif)
- "Um campo é um espaço social estruturado, um campo de
forças - há dominantes e dominados, há relações
constantes, permanentes, de desigualdade, que se exercem no interior desse
espaço - que é também um campo de lutas para transformar ou
conservar esse campo de forças. Cada um, no interior desse universo,
empenha em sua concorrência com os outros a força (relativa) que
detém e que define sua posição no campo e, em consequência,
suas estratégias'' (BOURDIEU, 1997, p. 57).
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Beatriz Becker (2006) com
o estudo da estrutura narrativa do telejornal, Célia Mota (2006)
tratando da linguagem textual e imagética e a relação entre
si.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Ele está lá, eu o vejo, ele me fala.
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