Intelectuais e mídia: um estudo comparado entre Brasil e
França
Fábio Henrique Pereira
Universidade de Brasília
E-mail: fabiohpereira_unb@yahoo.com.br
"Por mais brilhantes e por mais que se imaginem suspensos e soberanos na
História os intelectuais têm sempre um solo determinado, um momento específico, uma conjuntura específica''.
Daniel Aarão Filho
O objetivo deste artigo é realizar um estudo comparado sobre as
transformações que atingem o meio intelectual no Brasil e na
França no período que vai do final da década de 1960 até
meados dos anos 1980. Como ponto de partida, trabalharemos com uma
hipóptese compartilhada por autores europeus (Pierre Bourdieu, Rémy
Rieffel, Félix Ortega e Maria Luísa Humanes) e latino-americanos
(Beatriz Sarlo, Octavio Ianni, Juremir Machado da Silva, Marcelo Ridenti)
que sugere uma progressiva influência dos medias enquanto espaços de
atuação e legitimação da intelligentsia nesses dois países. Assim,
buscaremos entender em que sentido essa crescente mediatização dos
intelectuais representaria uma mudança na sua identidade e
representação social. Ao mesmo tempo, buscaremos entender como cada
contexto nacional reagiu a este processso.
Nossa pretensão, contudo, ultrapassa a produção de uma
comparação horizontal da evolução de um mesmo grupo social
em dois contextos sociais distintos. Esta primeira pista de
investigação mostrou-se na verdade, equivocada, quando analisada com
mais cuidado. Ela pressupõe uma concepção linear dos
intelectuais, enquanto categoria funcional homogênea - ou pelo menos
análoga - quando observada simultâneamente nos contextos
francês e brasileiro. Ora, é preciso ter em mente que a palavra
"intelectual'' não remete à mesma representação nos dois
países. Ela aparece enquanto grupo "universal'', mas essa
neutralização reflete processos distintos de construção e
objetivação da categoria. Quando falamos sobre a intelectualidade no
Brasil e na França, na verdade, estamos fazendo referência a dois
grupos distintos, derivados de contextos e processos particulares, mas
compartilham o mesmo nome.
Assim, ao analisarmos o processo de mediatização dos intelectuais
no Brasil e na França, duas questões devem ser analisadas
simultaneamente:
- Como esse processo se efetiva no contexto brasileiro e francês? Que
ordem de fatores podem explicá-lo?
- Como essas transformações se relacionam com a própria
representação social do intelectual, construída e objetivada de
forma distinta nos dois contextos nacionais?
Isso implica comparar as diferenças / similitudes desse processo à
partir de um duplo viés: das diferentes processualidades históricas
e das identidades nacionais atribuídas à intelectualidade. Sabemos
dos riscos envolvidos nesse trabalho simultâneo de construção e
descontrução. Admitir complexidade dessa proposição implica
em trabalhar numa linha tênue que poderia conduzir à impossibiliadde
de se produzir um trabalho comparativo sobre o objeto "intelectuais''. Por
outro lado, acreditamos que este tipo de proposta pode ajudar a resolver
alguns equívocos em torno do questão da identidade do intelectual,
muitas vezes mistficada pelo discurso de legitimação que busca
colocá-los enquanto categoria universal e neutra, e imprescindível
às sociedades modernas.
Como ponto de partida sugerimos, portanto, um quadro comum de
transformações estruturais no meio intelectual brasileiro e
francês, compartilhado por autores oriundos de tradições
teóricas distintas. Essas analises enfatizariam declíno de certos
"modelos de intelectuais'' à partir da década de 1970, sobretudo os
atores cuja legitimidade e as formas de atuação no espaço
público se fundariam no engajamento politico-revolucionário.
Assim, a figura gramsciniana do intelectual "orgânico'', ou o
estereotipo sartriano de intelectual engajado estariam desaparecendo. Esse
processo resultaria da propria obsolescência do partido des massas nas
sociedades contemporâneas, como espaço de atuação dos
intelectuais vistos enquanto produtores de uma ideologia
conta-hegemônica (FLACKS, 1991; IANNI 1998). Ou seja, o "Moderno
Principe'', organizador do "intelectual coletivo'' (GRAMSI, 1979; 1980)
não teria resisistido à crise do Estado-nação (IANNI,
1992), dentro de un cenário macro-estrutual marcado pela crise das
ideologias de esquerda (RIEFFEL, 1993), pela ascensão do neoliberalismo
(FLACKS, 1991; IANNI, 1992), das "estruturas desterritorializadas da
globalização (IANNI, 1992; 1998), e dos novos desafios impostos pela
"sociedade do conhecimento'' (ORTEGA & HUMANES, 2000). Assim, "o
partido de massa nacional como um esquema de alcançar e manter hegemonia
parece obsoleto (...). Esses partidos, depois de décadas de
domínio, esgotaram sua legitimidade e nenhum jargão transacional
está refletido neste declínio'' (FLACKS, 1991, p. 09).
Outro conjunto de transformações atingiria as formas de engajamento
do intelectual "autônomo'' , oriúndo dos meios
artístico e universitário. Esses intelectuais, longe de se
submeterem às imposições da militância
político-par- tidária se destacariam por uma produção
crítica e independente (MILLS, 1964, 1965). Sua atuação
enquanto intelectuais se efetuaria na ligação orgânica que
estabelecem entre a produção estética, acadêmica e
científica e os anseios dos movimentos da sociedade civil. Enquanto
teóricos, os intelectuais devem constituir-se numa arena em que as
questões de grande importância para o público devem ser
discutida. (FLACKS, 1991). "Como criadores e defensores de normas, queremos
que outros homens participem dos nossos ideais. Mas não devemos
fazê-lo numa forma puramente optativa. Devemos fazê-lo actuando no
nosso próprio meio imediato'' (MILLS, 1964, p. 143).
A prática intelectual "se realizaria pelo do uso das próprias
ferramentas intelectuais em favor da sociedade (MILLS, 1964). A legitimidade
universitária aparece como uma alternativa à atuação
político-partidária, na medida em que sobreviveria às crises do
comunismo e do Estado-nação. É uma forma também de
reforçar o discurso de (auto)legitimação do intelectual como um
grupo autônomo e suspenso na sociedade, cuja função se
identificaria com a necessidade de defesa de alguns valores morais e
universais, "diante do qual intelectual se ergue como portador das
exigências da razão, da verdade, da liberdade, da tolerância, da
compreensão, do amor e da piedade'' (BOBBIO, 1997, p. 59).
Mas essa crença, segundo Flacks (1991, p.12), estaria sendo questionada
pelo próprio carreirismo acadêmio desses atores. "A necessidade,
urgentemente expressa nos anos 1960 e no início dos anos 1970, de
conectar o trabalho intelectual com a experiência diária e com os
movimentos sociais parecem ter sido substituídos por uma necessidade
urgente de ser reconhecido pelos amigos intelectuais'' . (FLACKS, 1991, p. 12).
Contribuiriam ainda para esse processo a difusão de saberes técnicos
no lugar de saberes filosóficos e o fim das utopias políticas nas
ciências humanas (ORTEGA & HUMANES, 2001; SARLO, 1997).
O cenário atual fragilizaria a posição do intelectual na
sociedade, levando a um cenário de "crise'' das antigas
representações identitárias associadas à intelligentsia (SARLO, 1997;
PELLETIER, 2000; RIEFFEL, 1993; ORLY & SIRILENIL, 1992). "O fim do
messianismo, o descrédito dos dogmas anteriores o esvanecimento da
figura do intelectual profético demonstram de maneira evidente que o
movimento de idéias cessa de ser definido pela realção às
mitologias de outrora'' (RIEFFEL, 1992, p.
19). A antiga intelectualidade estaria agora imersa numa rede que incorpora
técnicas e intelectuais da comunicação de massa. A
elaboração do discurso intelectual deve prever agora sua
condição de enunciação, o que representa uma
diluição do monopólio discursivo da intelligentsia num pluralismo
mediático:
Enquanto a autoridade do intelectual se legitima numa diferença de
saberes, a autoridade dessas novas vozes é produto de um efeito de
comunidade ideológica e de representação próxima:
paradoxalmente as vozes mais mediatizadas (justamente as vozes que chegam
por intermédio dos meios) produzem a ilusão de uma comunidade
estreita. (SARLO, 1997, p. 161).
Nesse cenário, que é midiático, novos intelectuais (que podemos
chamar, sem ironia, de intelectuais eletrônicos) estabelecem fortes
relações comunitárias com novos públicos. Ninguém mais
próximos que eles de um senso comum coletivo que interpretam e, ao mesmo
tempo, constroem, a cujas exigências atendem e cujas
inquietações repetem, sem deixar de doutriná-los (SARLO, 1997,
p. 168).
Esse processo que alteraria as formas de atuação do intelectual no
espaço público mas também o proprio modelo identitário da
intelectualidade. A hegemonia dos media enquanto espaço de
legitimação intelectual, a "despolitização'' progressiva do
espaço público, o declínio dos valores "universais''
associados à antiga intelligentsia sustentariam a hipótese de emergência de
uma nova categoria de intelectuais, os intelectuais mediáticos.
Vistos sobretudo enquanto objeto de polêmica, sobretudo na França,
os intelectuais mediáticos costumam ser alvo de reações apaixonadas dos outros membros da intelligentsia, sobretudo quando se trata de algumas figuras mais emblemáticas
(Arnaldo Jabor, Diogo Manardi, no Brasil; Bernard Henry Lèvy, Alain,
Minc na França, entre outros). De certa forma, o nome não chega se
constituir enquanto categoria "objetiva'', mas é uma atribuição
pejorativa dada e esses indivíduos (BUXTON, 2005).
Poucos estudos buscam definem intelectuais mediáticos dentro de uma perspectiva realmente
analítica. Destes, podemos citar os trabalho de Pierre Bourdieu (1984)
sobre as mudanças no campo do campo universitário francês à
partir da década de 1960. Segundo Bourdieu, estes novos intelectuais
surgiriam à partir das transformações nos mecanismos internos de
auto-legitimação do campo em favor de uma maior dependência com
relação ao campo jornalistico. Isso garantiria aos media o papel de
instâncias privilegiadas de reconhecimento e consagração
intelectual.
Da mesma forma, Rieffel (1992; 1993) evidencia as alterações no que
ele chama de "configuração intelectual'' , pelo aparecimento de novas formas de
afiliação, legitimação e consagração na
intelectualidade. Assim, de uma hierarquia fundada sobre o prestígio do
intelectual face aos pares, emergeriam novos valores ligados aos
constrangimentos mediáticos: a capacidade de estar sempre presente nos
media, de adaptar o discurso aos news values jornalísticos, de interagir e se
legitimar face aos profissionais do meio audiovisual, etc. Como
consequência, Rieffel mostra um processo de multiplicação das
zonas de contato entre os profissionais dos medias e a intelectualidade. A
perda da autonomia, a confusão entre as representações habituais
de jornalistas e intelectuais criaria uma sociabilidade eclatante entre os
dois grupos onde emergeriam os intelectuais mediáticos (RIEFFEL, 1992).
Outros autores, contudo, buscam definir esses intelectuais mediáticos dentro de uma perspectiva
normativa, onde a necessidade de auto-legitimação parece evidente.
Utilizando-se de um discurso de "crise'' ou de "declínio'' da
"verdadeira intelectualidade'', autores como Jacques Pelletier
(2000) , Régis Debray (1979) , Juremir Machado da Silva (2000) vão enquadrar os intelectuais mediáticos como uma espécie de "usurpadores'' da "nobre
função'' de intervir criticamente no espaço público. Assim,
implícita à própria definiçao utilizada, reside uma forte
crítica à qualidade das intervenções e à legitimidade
desses novos atores, quando comparados a outros modelos - sartriano;
gramsciniano; foucaultiano ou bourdieusiano - de intelectual. Mesmo Pierre
Bourdieu (1997) não escapa a esse tipo de postura quando analisa a
atuação dos fast thinkers nos media franceses em Sobre a Televisão.
Outros autores buscam desmitificar essa relação entre o
"intelectual mediático'' e o discurso de crise da intelectualidade
tradicional. Para Sarlo (1997), é preciso desconfiar das pretensões
de universalidade desse novo intelectual. Para ela, os media seriam
incapazes de ocupar completamente o espaço intelectual. Na mesma
direção Buxton (2005, p. 24) destaca que o intelectual mediático seria apenas a parte mais
visivel de um processo social de circulaçao de idéias na sociedade:
"o intelectual dos media não é nada mais que um captor-emissor,
socialmente determiando, que `materializa' e que se apropria de idéias
eficazes, elas também socialmente determinadas'' .
O problema que emerge com esse debate reside na forma como ele
"neutraliza'' a noção de intelectual, colocando-a enquanto
categoria funcional, negligenciando os processos de atribuição de
sentido e de legitimidade ao grupo social. Ou seja, a processualidade
histórica supostamente empregada para questionar e compreender a
emergência dos intelectuais mediáticos freqüentemente é negligenciada quando se trata
de analisar os intelectuais de uma maneira geral. Eles aparecem com uma
categoria ideal e socialmente suspensa, e impreganada do um discurso de
auto-legitimação. Isso se evidencia pela recorrência de certos
termos associadas à intelligentsia tradicional em detrimento aos intelectuais mediáticos: autonomia,
universalidade, discurso crítico no espaço público, etc...
O cerne do debate em torno da emergência do intelectual mediático está, portanto, na
definição de intelectualidade adotada. O que é o intelectual?
Que tipo de categoria ou grupo social estamos no referindo quando falamos em
"crise'' do intelectual?
Dois problemas surgem quando nos debruçamos em parte da literatura
dedicada ao estudos intelectuais. Em primeiro lugar, verificamos uma
multiplicidade e definições, a maior parte delas normativas. Segundo
Bobbio (1997, p. 13), os intelectuais são a única categoria social
que só podem ser definida por eles mesmos. O problema é que
dificilmente a intelectualidade se propõe apenas a se definir. E uma
coisa é delimitar a área de utilização do termo
`intelectual' - sem esquecer que existem outros termos equivalentes. Outra
é acrescentar qual deve ser seu papel na sociedade:
A passagem de um plano a outro ocorre muitas vezes de modo inconsciente,
tanto que o juízo negativo sobre a inteira categoria depende unicamente
da constatação de que, de fato, os intelectuais de quem observam o
comportamento não desempenham a função que deveriam desempenhar
segundo o modelo que temos em mente e com o qual nos identificamos (BOBBIO,
1997, p. 13)
O segundo erro, como já havíamos destacado, está na forma como
essas diferentes acepções normativas buscam "neutralizar'' os
intelectuais enquanto categoria funcional. Ao destacar o engajamento
revolucionário dos intelectuais (SARTRE, 1972; GRAMSCI, 1979; 1980), o
seu papel crítico (MILLS, 1964; SAID, 1996); a defesa de valores
"universais'' (BENDA, 1927; BOBBIO, 1997; SARLO, 1997); ou ainda a
autonomia da categoria dos intelectuais (ARON, 1980; WEBER, 2004), essas
definições colocam a intelectualidade como um categoria que surge
"naturalmente'' tendo em vista as necessidades da sociedade. Ao naturalizar
o papel dos intelectuais na sociedade, alguns autores incorrem no erro de
ignorar os processos sociais e históricos que compõem a identidade
do grupo. Mas sobretudo a forma como esses dicursos se articulam às
estratégias de legitimação de certos atores que visam objetivar
suas aspirações e trajetórias pessoais numa concepção
unitária da categoria .
A constatação de que existem uma grande diversidade de
acepções normativas, cada uma tentando impor sua definição
do que dever ser intelectual, mostra sobretudo, os mecanismos de
contrução social dessa categoria. Não existe um conceito
unitário e definitivo da intelectualidade, pois o próprio estatuto
de intelectual é objeto de constante redefinição e disputa,
sendfo imerso numa relação dialética entre o contexto
histórico e as estratégias dos atores e grupos sociais na
definição da categoria (CHARLES, 1990)
Isso significa que o processo de passagem de uma estabiliade identitária
para um contexto de crise ou transformação dos intelectuais e, mais
tarde de emergência dos intelectuais mediáticos deve ser visto com cautela durante a
análise, de forma a não naturalizar a noção de intelectual.
Finalmente, embora tenhamos descrito um processo comum à intelligentsia brasileira e francesa, é preciso estar sempre atento ao que significa
ser "intelectual'' na França e no Brasil. Dois contexto
sócio-históricos distintos implicam formas diferentes de conceber e
pensar o grupo. Não que estejamos trabalhando com um modelo nacional de
intelectualidade. Mas como algo que resulta de um processo particular de
objetivação da categoria em cada país, cuja face mais
visível é existência de uma acepção de "intelectual''
que é socialmente reconhecida e partilhada, mesmo que ela seja, ao mesmo
tempo, objeto de disputas e transformações
O trabalho aqui consisite, portanto, em encontrar operadores capazes de
pensar o intelectual escapando, ao memso tempo, da neutralização
progressiva da categoria e de uma ancoragem historica datada (CHARLES,
1990), o que inviabilizaria qualquer pretensões de uma análise sobre
a categoria. Nesse sentindo este artigo levar em conta os seguintes
pressupostos teóricos-epis- temológicos:
Em Questions de Sociologie, Pierre Bourdieu (1984) escreve que "Juventude não é mais do
que uma palavra''. Esta assertiva pode também ser aplicadas aos
intelectuais. Na verdade, a sociologia bourdieusina se apropria de alguns
princípios do construtivismo para explicar como certos grupos sociais
- a família, os jovens, os intelectuais - são "palavras'' que
adquirem "existência'' quando inculcados num determinado universo à
partir de um trabalho de socialização:
Este princípio de construção é um dos elementos constitutivos do nosso habitus, uma estrutura mental que, tendo sido inculcada em todos os cérebros socializados de uma certa forma, é ao mesmo tempo
individual e coletiva; esta é uma lei tácita (nomos) da
percepção e da prática que é o fundamento do consenso sobre
o senso do mundo social ao fundamento do senso comum .
Nesse sentido, é possível pensar os intelectuais como um grupo que
é socialmente construído (o que significa que não é
"natural'' à sociedade), mas que torna-se uma categoria "objetiva'',
na medida em que passa a ser reconhecida e interiorizada como tal. "Quando
se trata do mundo social, as paavras fazem as coisas porque elas fazem o
consenso sobre a exisitência do senso das coisas, o senso comum, a doxa aceita por todos como originária de cada um. .
Mesmo que os intelectuais estejam imersos numa processualidade
histórica, social e interacional, sua análise enquanto categoria
socialmente construída não significa desconsiderá-los enquanto
atores sociais, mas compreender as razões pelas quais certas
acepções são objetivadas, de forma a entender melhor as
estratégias que emergem no discurso desses atores. A reação que
se produz à questão dos intelectuais mediáticos na França, a
articulação de um discurso de crise, por exemplo, está
relacionada à imagem de autonomia com relação ao poder e de
engajamento intelectual junto às causas universais que se constrói
à partir do Affaire Dreyfus e que é reiterada por figuras distintas como Zola,
Sartre, Camus, Aron e pelo próprio Pierre Bourdieu. Essa
concepção, embora não deixe de estar ligada às
estratégias de legitimação do grupo, influi sobre o mundo social
na medida em que provoca às reações de parte da intelectualidade
em torno do "declínio'' ou da crise dos intelectuais naquele
país.
Ao atribuir aos intelectuais uma natureza e uma função na sociedade,
o paradigma funcionalista nas ciências sociais acaba caindo num
essencialismo que tende a legitimar o status quo (RUELLAN, 1993). A identidade do
intelectual se articularia a uma definição estática de um grupo
que deve atender a uma necessidade específica do sistema social.
Qualquer alteração nessa identidade é vista como um
"disfuncionamento''.
Os intelectuais se configuram numa categoria historicamente construída.
Sua identidade se constitui por um processo de
diferenciação/exclusão e não da criação de uma
unidade idêntica, inteiriça e `sem-costuras' (HALL, 2000; REIS
FILHO, 2000). A emergência dos intelectuais, seu modo de
atuação, as alterações na sua identidade resultam de um
processo dialético entre a ação dos atores condicionando sendo
condicionada por um momento histórico definido (RIEFFEL, 1993; STRAUSS;
1992). É o que fica evidente nos trabalhos de Cristophe (1990) sobre o
nascimento dos intelectuais na França. Mas também na forma como este
grupo social - tipicamente francês - construiu e definiu sua
identidade no Brasil
A identidade dos grupos sociais se funda nas interações. "É no
decorrer do face à face interacional e, graças a ele, que avaliamos
melhor a si mesmo e aos outros'' (STRAUSS, 1992,
p. 47). Lógica que é ainda mais marcante no caso dos intelectuais,
cujo estatuto depende sobretudo dos mecanismos institucionais de
reconhecimento, internos e externos ao meio. "Nunca se é um intelectual
por estatuto e sempre um intelectual para alguém'' (RIEFFEL, 1993, pp. 14-15).
A evolução das identidades não deve ser observada apenas nas
definições historicamente cristalizadas, mas na forma como elas
são interiorizadas e articuladas pelos atores. E na interação
com os pares e com atores externos ao meio que os intelectuais afirmam suas
identidades. Nesse sentido, o meio intelectual deve ser visto como um
espaço social onde os indivíduos estão ligados entre si por
dependência recíproca. Trata-se de espaço estruturado por
lógicas de concorrência e reconhecimento que atribuem e garantem o
estatuto do intelectual (RIEFFEL, 1993). "Essas `redes' engendram, de fato,
microclimas específicos, e a palavra reenvia, nessa perspectiva, a um
duplo sentido, de um lado `redes' que estruturam e `microclimas' que
caracterizam um certo ambiente'' (ORLY & SIRINELY, 1992, pp. 244-245).
No Brasil, a intelectualidade enquanto grupo socialmente objetivado
prescinde de um "ato de nascença''. É impossível remeter as
acepções derivadas do termo a um evento fundador como o affaire Dreyfus na
França. Assim, tomaremos o período que vai de 1920 à 1945 como
ponto de partida para compreendermos que tipo de intelectual estamos
falando, quando analisarmos, mais tarde, o processo de mediatização
dos hommes des lettres no Brasil. De fato, este período se mostra importante na
consolidação de uma definição e de uma identidade do
"intelectual'' à brasileira (MICELI, 2001) e que perdurará até
meados de 1960. Três fatores justificam nossa escolha:
- Do ponto de vista macro-estrutural, o período implica no fim de um
modelo de sociedade marcado por uma economia agrária-exportadora e
dominada por uma elite regional e o início de um processo de
industrialização, urbanização e fortalecimento do mercado
interno e do Estado brasileiro. Este processo altera profundamente o
trabalho do intelectual, seja nas formas de ingresso ao meio, seja no
caráter das obras produzidas, como veremos a seguir.
- No caso específico das "profissões intelectuais'', isso implica
numa ruptura nos esquemas de legtitimação que perduravam
anteriormente - pela grande imprensa ou pela representação
parlamentar - através da construação de espaços
institucionais mais próximos do intelectual contemporâneo (MICELI,
2001)
- Do ponto de vista da produção inteletual, verificamos o
predomínio de uma ideologia da "cultura brasileira''. A
acepção implica numa ruptura com os esquemas anteriores de
interpretaçao do país - que pregavavam a adoção de um
modelo branco'' e europeu de cultura - em nome uma valorização da
mestiçagem, como símbolo da "identidade nacional'' (MOTA, 1990). A
construção dessa identidade, bem como de um modelo de
desenvolvimento para o Brasil passava pela intervenção teórica e
política do intelectual (PÉCAULT, 1990).
Observamos, durante esse período, a criação de novas
instâncias de mediação do trabalho intelectual: novos partidos e
frentes de mobilização política à esquerda e à direita,
instituições de ensino, a emergência do mercado editorial e a
proliferação de postos no setor público. Passava-se de uma
atividade inteletual, restrita às elites rurais, dependente do mecenato
privado ou da Igreja para uma proliferação dessas carreiras, sob
forte ingerência estatal.
O forte crescimento do setor público e a centralização da
administração do país durante o regime de Getúlio Vargas
resultou numa mudança nos mecanismos de ingresso e legitimação
intelectual, seja pelo recrutamento direto nos postos burocráticos
criados pelo Estado , seja pela sua intervençao oficial diferentes
domínios da cultura: produção, difusão e
conservação do trabalho artístico e intelectual. Ou ainda pela
ingerência estatal no processo de regulamentação das
profissões de nível superior.
Dessa forma, o Estado impõm-se como grande concercionário dos
padrões de legitimidade intelectual, decidindo quem são os
verdadeiros representantes da "cultura brasileira''. "O Estado
transforma-se, por essa via, na instância suprema de legitimaçao das
competências ligadas ao trabalho cultural, técnico e
científico, passando a atuar como agência de recrutamento,
seleção, treinamento e promoção do público portador de
diploma superior'' (MICELI, 2001, p. 203).
Embora essa vinculação com o Estado não implique necessariamente
numa cooptação doutrinária da intelligentsia, (MICELI, 2001, PÉCAULT,
1990), o certo é que a própria representação do intelectual
no Brasil à partir daí estave estreitamente ligada ao seu papel
enquanto analista, crítico ou produtor de um modelo ideológico que
expressasse uma identidade "nacional'' à cultura ou ao modelo
político-econômico no Brasil .
Nesta breve análise chegamos, portanto, a um modelo do intelectual
brasileiro que se define à partir de sua relação com o Estado.
Seu ingresso no meio se faz à partir das instâncias criadas ou
controladas pela máquina estatal - universidades, institutos
artísticos e culturais, órgãos públicos,
instituições de financiamento à produção intelectual,
etc. Mas também pela sua própria representação social,
enquanto um grupo que se coloqua como ideologicamente "autônomo'',
aspira - e às vezes consegue - interferir na construção de um
modelo político e cultural "adequado'' ao país, mesmo que imposto
de "cima para baixo''.
O meio intelectual brasileiro nos anos 1960 e 1970 foi marcado por uma
efevervecência política e cultural, orientada, sobretudo, pelas
teorias e ideologias de esquerda. Esse contexto encontra explicações
no final dos anos 1950, quando essas ideologias chegam a certos setores do
Estado. Nessa época, o país era governado por João Goulart,
herdeiro do trabalhismo populista da "Era Vargas'', mas que vai se
aproximar de certos setores da esquerda mais progressista. Ele se apropria
de algumas proposições desses grupos, sobretudo em torno das
"reformas de base'' (reformas agrária, bancária, administrativa,
fiscal, urbana escolar, jurídica, trabalhista, entre outras).
Verifica-se, portanto, a junto a certos instituições políticas
- o Partido Comunista do Brasil (PCB), o Comando Geral dos Trabalhadores
(CGT), a União Nacional dos Estudantes (UNE) - e intelectuais - O
Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) e a Universidade de São
Paulo (USP) - a crença de uma "modernização socialista da
sociedade'' (CZAJKA, 2004, PÉCAULT, 1990). Trata-se de um cenário de
confluência entre o meio universitatário, parte do Estado e os
movimentos políticos, funaddos na utopia de que o Brasil vivia uma
"revolução socialista'' em curso.
Implicito à cultura política da época estava a crença de
uma união entre a intelectualidade e as massas. Orientados pelas
ideologias sartrianas e gramscinianas sobre o papel do intelectual, uma
parcela da intelligentsia da época se colocava enquanto responsáveis culturais da
revolução em marcha. Essa crença explica a atração
exercida pelo PCB enquanto organizador de uma "sociedade civil comunista''
no Brasil ou a criação dos Centros Populares de Cultura (CPCs) que
buscavam transformar a cultura em instrumento revolucionário junto
às massas (PÉCAULT, 1990).
Nesse contexto, acontece ainda a reformulação das ciências
sociais no Brasil pela incorporação de certas teorias
maxistas , como ponto de
partida para uma releitura e reinterpretação da condição do
país. O marco fundador dessa mudança serão os "Seminários
Interdisciplinares de leitura sobre o Capital'', realizados à partir de
1958 sob a coordenaçaão de Florestan Fernandes, mas com a
participação de jovens pesquisadores como Octavio Ianni e Fernando
Henrique Cardoso. Mudança que rompe com as interpretações
funcionalistas e ligadas à mestiçagem do povo e da cultura
brasileira dando lugar a noções como subdesenvolvimento e
dependência (RIDENTI, 2003 ; SORJ, 2001; CZAJKA, 2004, p. 42):
A necessidade de compreender, discutir e reformular a nova conjuntura
nacional que emergia durante os primeiros anos da década de 1950 -
período de transformações sociais, políticas,
econômicas e culturais também executadas num plano internacional -
se mostra num sintomático processo de transformação que se
produz no interior dos grupos de esquerda, como nos seus respectivos grupos
de formação de uma consciência e de construção de
identidades nacionais e populares. E a proposição de um novo
vocabulário por esses artistas e intelectuais mostra a necessidade de
estabelecer essa identidade à partir dos seus aspectos sociológicos
e filosóficos.
Esse cenário altera-se profundamente à partir do golpe militar de
1964 e sobretudo, após da instituição do AI-5, em 1968. O ato
colocará um fim na crença numa revolução socialista
conduzida pelo Estado com o apoio dos intelectuais. Os eventos
implicarão numa ruptura entre a teorização sobre o papel social
dos intelectuais e as formas possíveis de militância política
durante a ditadura (RIDENTI, 2003).
Assim, parte dos intelectuais, sobretudo a juventude estudantil
radicalizará a ação revolucionária constituindo movimentos
de guerrilha urbana e rural. "A guerrilha'', afirma Pécault (1990,
p.247), "é ums sintonia entre outros de que a política dos
intelectuais não pode mais assumir as modelidades habituais (...)
Reside também na capacidade de gerar tensões internas ao próprio
meio intelectual das esquerdas com o que isto implica de volta a si mesmo: o
`povo' está decididamente bem longe''
Uma segunda parcela se concentrará nos terrenos da produção
cultural e científica, muitas vezes apoiada pelo próprio governo
militar. Este processo se acelera sobretudo no início dos anos 1970,
quando a ditadura abate a quase totalidade dos movimentos de guerrilha
revolucionária.
Finalmente, uma terceira parte desse grupo vai criar movimentos de
resistência ao regime no interior de uma impernsa alternativa, ligada ou
não aos partidos de esquerda clandestinos. "A imprensa alternativa
acabou se tornando o principal espaço de reorganizaçao politica e
ideologica das esquerdas nas condiçoes especificas do autoritarismo''
(KUCINSKY, 2003, p. 17). Nesses veículos, intelectuais, jornalistas e
ativistas políticos compartilharam uma rede comum de atuação em
que buscavam construir um hegemonia socialista (Movimento, Opinião, etc) ou como espaço
de expressão dos movimentos brasileiros de contra-cultura.
Esse processo reflete o declínio de uma concepção
"totalitária'' do intelectual - enquanto intéreprete e agente de
uma realidade e de uma cultura "nacional'' - com a progressiva
criação de grupos relativamente "autônomos'' do Estado e de uma
mudança na própria (auto) representação da intelectualidade:
Há uma reformulação das atividades de esquerda no país (a
partir do PCB e do ideário pecebista) que deixa de pensar o Estado
único e exclusivamente como centro das transformações
históricas da própria revolução brasileira (...). É
essa mudança de foco que possibilita uma nova consciência em torno
daquilo que representa o esforço do chamado marxismo ocidental, para o
qual os valores culturais indistintamente serão reconhecidos também
como valores políticos. É, pois, quando a cultura torna-se um
espaço legítimo de intervenção do seu principal
protagonista: o intelectual (CZAJCA, 2004, p. 52).
O fracasso da alternativa socialista durante a ditadura leva ainda parte dos
intelectuais a dirigirem suas produções rumo a uma espécie de
"grande recusa'' ao capitalismo (COUTINHO, 2005) que marca os movimentos de
contra-cultura no Brasil, como o tropicalismo e o cinema novo.
"Vislumbrava-se uma alternativa de modernização [da sociedade
brasileira] que não implicasse a submissão ao fetichismo da
mercadoria e do dinheiro, gerador da desumanização'' (RIDENTI, 2005,
p. 24). "O mal já não é tanto a ditadura ou mesmo o capitalismo
enquanto formação econômico-social: era todo um legado cultural
que, baseado na razão e na ciência, funcionaria essencialmente como
instância repressora da subjetividade humana'' (COUTINHO, 2005, p. 86).
A mudança no caráter dessas produções, assim como o
declínio do intelectual engajado-revolucionário marca o início
de um processo de transformação na identidade do grupo que se
acelera à partir da redemocratização do país. O processo
inaugura novas formas de ingresso na intelectualidade e na própria
representação social desses atores. Neste ponto é que se fala na
emergência do intelectual mediático no Brasil.
Com o processo de abertura política, o fim da censura e a amnistia,
há uma relativa repolitização do debate intelectual no Brasil,
mobilizados em torno da redemocratização. Durante esse período
ocorrem um conjunto de transformações conjunturais e estruturais que
ajudam a explicar a consolidação de uma nova identidade do
intelectual no Brasil:
À partir dos anos 1970 os movimentos progressistas buscam renovar os
parâmetros de definição da esquerda no Brasil. Na
construção de um novo socialismo, questões como a
revalorização da democracia, da individualidade, dos movimentos
populares espontâneos entram em pauta. Ao mesmo tempo, produz-se uma
literatura teórica que defende a desvinculação desses movimentos
do Estado. À partir dos anos 1980 esse processo se acelera com o fim da
ditadura, a reformulação sistema partidário brasileiro e, mais
tarde, a queda do muro de Berlim. De certa forma, verifica-se um esgotamento
do modelo bolchevique do partido revolucionário, como ilustra a
criação do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. No bojo desse
processo, verifica-se o declínio do arquétipo quixotesco do
inteletual de esquerda, a substituição de um discurso de ruptura
coletiva com o subdesenvolvimento nacional e a exploração das
classes, dando lugar à questões como o acesso individual ao
desenvolvimento globalizado (RIDENTI, 2003).
Durante a ditadura, os militares tievram uma postura bastante ambígua
com relação aos intelectuais e à cultura. Por um lado,
controlavam a produção artística e intelectual, através da
censura, das aposentadorias forçadas, das prisões e do exílio
de grande parcela da intelectualidade. Por outro, empenharam-se em construir
e modernizar os espaços de atuação de artistas e acadêmicos.
O regime foi responsável por uma modernização conservadora da
educação, com a massificação do ensino fundamental
público e a criação de um sistema de apoio a pesquisa e a
pós-graduação. Da mesma forma, abriu aos intelectuais novos
espaços de atuação na indústria cultural, com a
criação de órgãos públicos e empresas estatais nas
áreas de produção audiovisual (Embrafilmes), editorial (Insituto
Nacional do Livro) e artística (Funarte). O governo estimulou ainda a
criação do sistema de televisão nacional, em especial a TV
Globo, e da expansão da indústria cultural brasileira
(fonográfica, editorial, agências de publicidade etc) (RIDENTI, 2003;
2005).
Nesse processo ocorre uma integração parcial das propostas
revolucionárias dos anos 1960 e a absorção dos intelectuais
contestadores no sisitema unversitário ou na indústria cultural:
O fato é que a sociedade brasileira foi ganhando nova feição e a
intelectualidade que combatia a ditadura aos poucos adaptou-se à nova
ordem, que até mesmo instituía um nicho de mercado para produtos
culturais críticos, censurando e selecionando alguns deles.
Universidade, jornais, rádios, televisões, agências de
publicidade, empresas públicas e privadas tendiam a fornecer ótimas
oportunidades a profissionais qualificados, dentre os quais se destacavam os
que se consideravam de esquerda, expoentes da cultura viva do momento
imediamente anterior (Ridenti, 2003, pp. 203-204).
As mudanças nas formas de ingresso e legitimação no meio
acompanham as evoluções da atividade e da representação
social da intelectualidade. O declínio da noção de intelectual
engajado na transformação da sociedade à partir do Estado
resultou na construção de novos espaços de inserção
institucional dos intelectuais - universidade, partidos políticos,
mídia - que condicionam o forma de suas intervenções. "Por
força natural das coisas, abre-se uma era em que os intelectuais,
participam da política pretendendo menos atuar de imediato na sociedade
do que influenciar seu próprio meio.'' (PÉCAULT, 1990, p. 222). Ou
seja, de uma definição totalizante da intelectualidade ocorre uma
clivagem, resultado da "profissionalização'' dessa categoria'', em
diferentes tipos de intelectuais: "mediático'', "universitário'',
intelectual "de partido'', "ligado ao movimento social'', etc.
Isso significa que a emergência do intelectual mediático no Brasil não passou
necessariemente por um cenário de crise, mas de
"profissionalização'' (RIDENTI, 2003; CZAJKA, 2004) da categoria.
Nesse processo, as diferentes "conversões'' obedecem a uma
adequação dos intelectuais ao contexto pós golpe de 1964, onde
boa parte da intelectualidade articula sua produção à partir dos
espaços institucionais abertos na indústria cultural ou no Estado
(estatais, universidades, etc). A Rede Globo, segundo Ridenti (2005), é
a imagem mais caricatural de como as propostas revolucionárias
produzidas no terreno da cultural durante a década de 1960 foram
adaptadas na programação jornalística e na teledramaturgia da
TV brasileira. A questão da crise ou do silêncio dos
"intelectuais'', a crítica aos intelectuais mediáticos praticamente não aparece no Brasil
durante as duas últimas décadas do século XX. Ela reaparece de
forma mais pontual nos últimos cinco anos, influenciada pelo cenário
francês ou como uma reação ao progressivo esvaziamento do debate
político nacional.
Diferente do Brasil, a identidade do intelectual francês remete a um
marco histórico mais definido: a clivagem entre os diferentes grupos que
compõem as profissões liberais na França no final do século
XIX, durante os debates em torno do Affaire Dreyfus. Christophe Charles (1990) mostra como
as transformações no campo intelectual francês resulta numa
polarização no interior desse espaço que se radicaliza durante
as discusssões entre dreyfusistas e anti-dreyfusistas. Essas clivagens
denotam uma luta em torno de uma definição legítima dos
intelectuais, que é objetivada na construção de um grupo social,
muitas vezes expressas nas intervenções dos indivíduos mais
consagrados (Zola, Jaurés, Clémenceau) durante o affaire.
Isso não resulta numa definição funcional dos intelectuais
franceses, mas ajuda a compreender como a noção se cristaliza
naquele país nas representações veiculadas pelo próprios
intelectuais (Benda, Nizan, Sartre, etc) em torno do atuação
crítica e autônoma desse grupo social no espaço público.
Ela explica ainda as reações produzidas frente a um cenário de
mediatização da intelectualidade francesa (Bourdieu, Debray, Halimi,
etc).
Tentaremos mostrar como essas representações cristalizadas se
alteram com as transformações da intelectualidade francesa à
partir de 1968, período considerado por Debray (1979) e por Orly &
Sirinelli (1992) como o de ruptura no discurso intelectual e sobre os
intelectuais. Nos centraremos sobretudo nos trabalhos de Rieffel (1992,
1993) e em algumas proposições de Bourdieu (1984, 1989) e Orly &
Sirinelli (1992). Ou seja, tentaremos mostrar que mecanismos explicam o
declínio do modelo sartriano de intelectualidade naquele país
à partir da crescente mediatização dos clercs, sem entrar
detalhadamente numa análise sobre a evolução desses modelos.
Num estudo sobre as transformações da intelectualidade francesa,
Remy Rieffel (1993) mostra as alterações nos mecanismos de
atribuição de estatuto intelectual à partir da evolução
dos canais de afiliação, legitimação e consagração
intelectual. Segundo ele, à partir da Liberação, a definição da
identidade e do trabalho intelectual estavam intimamente ligados a uma
formação comum (sobretudo nas "Grandes écoles''), ao hábito
de frequentar certos espaços de socialização partilhadas pela
intelectualidade francesa (cafés, seminários, etc). Significava
ainda assinar as petições e se legitimar participando das principais revues intellectelles da época (Les temps modernes, Socialisme ou Barbarie, Esprit, Critique, etc). Finalmente, para se consagrar enquanto intelectual era
preciso publicar um livro e intervir na imprensa.
Esses diferentes canais de interação ligavam-se ao contexto
histórico da época. As clivagens ideológicas e teóricas dos
intelectuais no pós guerra estavam refletidas na rede social partilhada
pelos diferentes atores (os grupos de Sartre, Barthes, Lacan, Foucault,
Lévy-Strauss, Aron, etc.) ou pelas linhas editoriais das diferentes
revistas. Ou ainda, nas posições adotadas pelos inteletuais nas
petições ou nas suas intervenções na impresa. Por outro lado
as lógicas relativas aos espaços de socialização orientavam
as estratégias individuais de pertencimento e participação na
esfera intelectual. De acordo com as análises bourdieusianas,
tratavam-se, portanto, de operadores internos a este espaço que
orientavam as formas de atuação dos agentes, objetivados numa
definição "neutra'' da categoria (BOURDIEU, 1984; 1986).
Esse modelo, se altera a partir da década de 1970, graçar a uma
série de transformações internas ou externas ao meio
inteletual:
- O conjunto de mudanças na conjuntura política (os eventos de
maio de 1968, a chegada da esquerda ao poder no início da década de
1980, etc) econômica (crise econômica nos anos 1970,
liberalização da economia nos anos 1980, liberalização do
audiovisual pela esquerda, etc) e internacional (ascensão do
neoliberalismo na Inglaterra e Estados Unidos, fim do socialismo real, etc)
(RIFFEL, 1992; 1993);
- Alterações no interior do sisitema universitário francês
com a rápida expansão do número de alunos e de postos. Nesse
caso, segundo Bourdieu (1984), há uma mudança no equilíbrio do
sisitema de recrutamento, cooptação e ascensão dos intelectuais
universitários, provocando uma ruptura nas aspirações dos jovens
universitários e no sistema de recompensas promovido pelo campo,
- Mudanças no interior do movimento das idéias : divisões no
interior da esquerda, fim do engajamento ideológico dos intelectuais,
das escolas de pensamento. Dificuldades de clivagem (cultural e
ideológica) dos intelectuais (RIFFEL, 1992; 1993);
- Morte simultânia de grandes figuras (Sartre, Aron, Barthes, Foucault,
Althusser) representativas das antigas gerações intelectuais (ORLY
& SIRINELLI, 1992),
Esse conjunto de transformações explica o sentimento de crise de
identidade no intelectual francês. "O modelo do intelectual total do
tipo sartriano sofre de envelhecimento: somente as intervenções
pontuais, limitadas, efetivas, repatáveis, motivam ainda a ação
coletiva'' (RIEFFEL, 1993, p. 622).
A crise dá origem a uma série de debates sobre o "silêncio''
dos intelectuais na França e o nascimento de uma literaura
analítica que exprime um certo ceticismo com relação à
intelectualidade. Segundo Orly & Sirinelli (1992), trata-se de uma crise
ideológica e cultural que teria levado a um crise de identidade nos anos
1980, seja pela perda de certos elementos de identidade, seja pelo fim do
papel de "arautos'' durante as grandes crises nacionais.
Para Rieffel (1993), esse cenário explica-se pelo nascimento de novas
formas de afiliação, legitimação e consagração no
interior do mercado de idéias. Elas seriam respostas da
configuração intelectual a um conjunto de transformações
históricas o que incluem a mediatização cerescente das
práticas intelectuais. As alterações no sistema de
legitimação e intervenção intelectual se articulariam com a
criação de novos espaçoes de interdependência e de
atribuição do estatuto identitário, quando comparado às
instâncias tradicionais:
La configuration intellectuelle a été vivement secouée parce que
certains ont appelé un changement de paradigme. La perte d'influence de
certaines instances légitimantes traditionnelles (les revues, les
colloques, etc), la désacralisation des clercs des `grands récits',
et des idéologies totalisantes, le surgissement des intellectuels
médiatiques, la redistribution des filières d'affiliation sont
autant de facteurs d'une recomposition du milieu qui a basculé vers le
pôle de la médiatisation (RIEFFEL, 1992, p. 22).
Esse hipótese é confirmada por Bourdieu (1984, p. 148) que
acrescenta o fato que a busca por visibilidade mediática pelos
intelectuais resulta também de mudanças nos princípios de
dominação e legitimação do campo. Isso levaria parte dos
atores a recorrer ao jornalismo como instância de atribuição de
visibilidade:
Ele (o jornalismo) permite preencher rapidamente e de forma eficaz a
decalagem entre as aspirações e as possibilidades assegurando uma
forma menor da notoriedade atribuída aos grandes sábios e aos
intelectuais, e ele pode mesmo, num certo estágio da evolução da
instituição (universitária) em direção à
heterenomia, tornar-se uma via de promoção no interior da
própria instituição .
Assim, de uma hierarquia fundada no prestígio e na notoridade do
intelectual face aos pares, emergeriam novos valores, ligados à
lógica mediática: a capacidade de estar sempre presente nos medias,
de adaptar o discurso ao formato dos meios, de interagir e de se legitimar
junto aos profissionais da imprensa escrita e, sobretudo, audiovisual
(RIEFFEL, 1993). Essse processo implica abolir os mecanismos de
auto-legitimação da categoria, para uma maior dependência com
relação ao campo jornalístco, visto como instância de
reconhecimento e consagração intelectual "Embora ocupem uma
posição inferior, dominada nos campos de produção cultural,
eles exercem uma forma raríssima de dominação: tem o poder
sobre os meios de se exprimir publicamente, de ser conhecido, de ter acesso
à notoriedade pública (o que, para os políticos e para certos
intelectuais, é um prêmio capital)''. (BOURDIEU, 1997, p. 66).
Esse contexto leva a uma multiplicação das zonas de contato entre os
profissionais dos media e os intelectuais. A estratégias de
obtenção e conservação de influência dos intelectuais
passa agora pelo acúmulo de posições nos dois meios, o que
explica a emergência do intelectual mediático (RIEFFEL, 1992).
A hierarquia dos intelectuais na França estaria sendo alterada. E
possível constatar uma perda de hegemonia dos mandarins
universitários para os intelectuais ligados aos media (RIEFFEL, 1992). E
é essa ascensão que provocaria as reações por parte da
intelectualidade "tradicional'' contra intelectual mediático na medida em que recorrem a uma
certa nostalgia pelos seus antigos modelos da legitimação e
intervenção.
Apesar da breviedade deste trablho é possível tecer algumas
considerações sobre as similitudes e diferenças do processo de
reconversão da intelectualidade brasileira e francesa em direção
aos media:
a. Verificamos elementos comuns aos dois países analisados, no que se
refere aos eventos de conjuntura internacional. É o caso do o fim das
ideologias ligadas ao socialismo revolucionário e à
transformação dos movimentos de esquerda em todo o mundo. Nos dois
países, o declínio dessa intelectualidade socialista, passa por
uma progressiva desvinculação das crenças totalizantes,
subsituídas por intervenções mais pontuais no espaço
público.
b. Apesar das diferenças nas conjunturas nacionais, verifica-se uma
progressiva reconversão dos intelectuais do socialismo
revolucionário para a produção de uma cultura engajada e,
finalmente, à integração na indústria cultural. Rieffel
(1993, p. 145), assinala o exemplo do grupo ex-maos franceses que passam a
integrar o mercado editorial nos anos 1980, começando pelas suas
memórias enquanto militantes de esquerda. "O setor de
comunicação dos anos 80 é em parte dominada por esses antigos
`esquerdistas' "Le secteur de la communication des années 80 est en
partie dominé par ces anciens "gauchistes'' que se estabeleceram
não mas nas fábricas, mas nas empresas editoriais que desenham uma
nova nebulosa constituída por Actuel, Libération, L'autre Journal, Quai Voltaire ou Le Promeneur'' . Da
mesma forma, Ridenti (2005) mostra como os ex-integrantes do teatro de arena
e dos CPCs das décadas de 1950 e 1960 vão se tornar os autores e
diretores das telenovelas produzidas pela Rede Globo, à partir dos anos
1980.
c. Nos dois países, o processo de alteração na identidade dos
intelectuais é acompanhado por mudanças profundas nos setores da
indústria cultural. No Brasil verifica-se na sua expansão, o que
resultará na criação de um sistema de comunicação
moderno, onde a Rede Globo é o exemplo mais conhecido. Na França,
esse processo acontece mais tarde e resulta das medidas de
liberalização do setor audivisual daquele país nos anos 1980.
d. Há um declínio das antigas temáticas referentes à luta de
classes, à polarização esquerda-direta, com a escolha de temas
menos totalizantes e ligados às realidades nacionais. Na França,
ganham destaques questões com as guerras no Iraque e Kosovo, a
imigração, a integração à União Européia, as
medidas de incentivo ao crescimento e econômico e à criação
de postos de trabalho. No Brasil, os debates vão se deslocar para
questões como a integração regional, a inserção na
economia globalizada, consolidação da democraia e o combate às
desigualdades sociais.
e. De certa forma, verifica-se o fim de uma temática comum ligando as duas
intelectualidades (as diferentes formas de marxismo). Se o marxismo seguia
como ponto de interseção dos intelectuais dos dois países
(sobretudo pela leitura comum de alguns autores e pela influência dos
livros de Sartre e Althusser junto aos intelectuais brasileiros), atualmente
verifica-se uma abertura a novas correntes de pensamento, de
revalorização da sociologia anglo-saxônica no Brasil, de buscas
de novos modelos paradigmáticos nos dois países.
a. Por outro lado, todo processo de mediatização dos intelectuais é
percebido de forma diferente no Brasil e na França. Essas diferenças
decorrem das particularidades em que os intelectuais são definidos nos
dois países. Se na França a imagem do inteletual autônomo e
crítico sempre esteve cristalizada na sociedade, no Brasil, as
relações com o Estado sempre foram, no mínimo, ambíguas. O
maior índice de leitura e de alfabetização da população
francesa significou um respaldo do mercado editorial no meio intelectual e
da influência dos grande maîtres à penser junto à população. No Brasil, fora
algumas excessões (os CPCs, os teatros populares, etc), essa
ligação "orgânica'' com as massas sempre encontrou limites no
analfabetismo estrutural, na distância entre a produção
literária e universitária e o restante da população. Os
intelectuais brasileiros sempre estiveram limitados aos seus pares, mesmo
que ambicionassem a produção de uma ideologia popular. Os poucos que
obtiveram reconhecimento do público. sempre estiveram ligados à
produção audiovisual : eram cantores, cineastas e roteiristas de
telenovelas.
b. Por isso, o fim do engajamento e a mediatização dos inteletuais
representou também uma alteração na identidade da
intelectualidade brasileira. Mas esta mudança não derivou de um
cenário de crise da categoria como aconteceu na França. A crise dos
intelectuais no Brasil significou, sobretudo, o fim de um unitarismo
intelectual, de sua influência junto ao Estado em detrimento a uma
fragmentação das representações sobre o papel dessa intelligentsia. Não houve, na verdade, uma crise, mas um processo de
profissionalização intelectual. Na França o cenário de crise
deriva da cristalização da imagem do intelectual, originária de
figuras como Émile Zola, Sartre, Foucault e Bourdieu. Isso levou a uma
reação mais apocalíptica e a uma crítica generalizada aos
intelectuais mediáticos, muitas vezes vistos como representantes de um
processo irreversível de decadência da verdadeira intelectualidade.
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Footnotes
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre tradução
de: "The national mass party as a framework for achieving and maintaining
hegemony seems obsolete (...). These parties, after decades of rule, have,
coincidently used their legitimacy and that no transnational patter is
reflected in that decline''
![[*]](../_img/footnote.gif)
- É preciso ter em mente que a
autonomia intelectual, associada à identidade e às práticas
desses atores é parte do discurso de legitimação da categoria.
Sobre o assunto, ver. BOURDIEU, P. Homo academicus. Paris: Éditions de Minuit, 1984; e
BOURDIEU, P. Les règles de l'art. Genèse et structure du champ littéraire. Paris: Éditions du Seuil, 1992.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre
tradução de: "The need, urgently expressed in the 1960s and easily
1970s, to connect intellectual work with everyday experience and with
social movement seems to have been replaced by an urgent need to be
recognized by fellows intellectuals''.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre tradução de: "La fin du
messianisme, le discrédit des dogmes antérieurs et
l'évanouissement de la figure du clerc prophétique démontrent de
manière évidente que le mouvement des idées cesse d'être
défini par rapport aux mythologies d'autrefois''.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Rieffel utilisa o
conceito de configuração de Nobert Elias colocando o estudo das
interações entre os indivíduos numa abordagem intermediária
entre o estudo do comportamento individual dos atores e o determinismo
macro-estrutural.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- "L'expérience québécoise aussi bien
qu'européenne semble donc bien indiquer que l'évolution de
l'intellectuel a suivi une courbe descendante. Possédant au début du
siècle un capital symbolique important, exerçant une influence
réelle dans les débats politiques, il est progressivement
dépossédé de l'un et de l'autre et remplacé par des nouveaux
acteurs appartenant à l'univers concurrentiel du spectacle. D'une
certaine manière il est donc `mort', en effet, ce qui n'est sans doute
une bonne nouvelle. Mais il y a pire encore dans la mesure où cette
`mort' est accompagnée par un déclin de la vie et du débat
démocratique'' (p. 373).
![[*]](../_img/footnote.gif)
- "Les mass
média sont une machine à produire du simple - en éliminant le
complexe (...) Le public peut croire aujourd'hui qu'il y a plusieurs
intellectuels, il n'y a plus qu'un définitive. La matrice du système
médiatique tirera autant de copies que nécessaire - seul le moule
est original'' (pp. 139-140).
![[*]](../_img/footnote.gif)
- "A mídia conseguiu toma ro lugar da universidade e suplantar o lugar
do intelectual. O professor se vê anulado pelo colunista. O intelectual
desconstrói, o colunista pontifica; o intelectual duvida, o colunista
afirma; o intelectual conjectura o colunista define; o intelectual especula,
o colunista julga (....) Prótese do intelectual numa época de
decadência do intelectual universitário e do intelectual
público, o jornalista quer obter mais por menos'' (p. 44).
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre
tradução de: "L'intellectuel des médias n'est qu'un
capteur-émeteur, socialement déterminé, qui 'matérialise' et
qui relaya des idées agissantes, elles aussi socialement
déterminés''.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- A noção de intelectual defendida
por Sartre (1972), por exemplo, longe de ser "neutra'', reflete a
própria condição do filósofo, pequeno burguês que aspira
a "universalidade'' pelo engajamento ao lado da classe proletária. E
ainda o contexto em que ele emerge num meio intelectual, marcado pela
hegemonia ideológica do comunismo (ORLY & SIRINELLI, 1992).
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre tradução
de : "Ce principe de construction est un des éléments constitutifs
de notre habitus, une structure mentale qui, ayant été inculquée dans
tous les cerveaux socialisés d'une certaine façon, est à la fois
individuelle et collective; c'est une loi tacite (nomos) de la perception et de la
pratique qui est au fondement du consensus sur le sens du monde
social (...), au fondement du sens commun''. In: Bourdieu, P. À propos de la famille comme catégorie réalisée. ARSS, Numéro:
100. Décembre 1993. Utilizo aqui uma versão digital disponível
em: http://www.geocities.com/fhp_cacom/Pierre_Bourdieu_famille.doc
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre tradução de: "Quand il s'agit du monde social, les mots font
les choses, parce qu'ils font le consensus sur l'existence et le sens des
choses, le sens commun, la doxa acceptée par tous comme allant de soi'' In : Bourdieu, P. Idem.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre tradução de: "C'est
au cours du face à face interactionnel et, grâce à lui, que l'on
évalue le mieux à soit même et les autres''.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre
tradução de: "On n'est jamais un intellectuel par statut et
toujours un intellectuel pour quelqu'un''.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre tradução de: "Ces
'réseaux' engendrent en effet des microclimats spécifiques, et le
mot revît, dans cette perspective, un double sens, à la fois
'réseaux' qui structurent et 'microclimat' qui caractérise un milieu
donné''.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Pela profissionalizaçao e
racionalizaçao das carreiras burocráticas, diferente do simples
acomodamento de afiliados em postos burocraticos, como ocorria
anteriormente.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- É neste ponto que a inteligentisa brasileira busca legitimar sua pretensão enquanto grupo socialmente
suspenso. Nesse sentido, Daniel Pécault (1990) chega a falar numa
"vocação demiúrgica'' dos intelectuais brasileiros, vistos
enquanto "arautos'' de uma consciência nacional totalizante. Essa
concepção é vista como simplista por Miceli (2001), que
crítica a tendência teleológica de Pécault em adaptar à
complexidade dos diferentes percursos e correntes intelectuais à sua
hipótese totalizante. Por outro lado, essa crença em torno de uma
casta de legítimos intérpretes da realidade brasileira aparece na
maioria dos trabalhos de auto-avaliação e auto-representação
produzidos pelos principais intelectuais do País durante esse
período. É o que fica evidente, por exemplo, na leitura do livro de
Mota (1990), que se propõe a mapear a evolução das correntes
intelectuais no Brasil. Na análise, de forte teor gramsciniano, o autor
mostra como a pretensão do totalizante desses pensadores com
relação à cultura brasileira reflete o caráter
aristocrático ou pequeno burguês dessa produção.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Marx, Sartre e Althusser. Mas tambéma utores ligados
ao "marxismo cultural'': Gramsci, Adorno, Marcuse etc.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre tradução de : "Le modèle de
l'intellectuel total du type sartrien souffre de vieillissement : seules les
interventions ponctuelles, limitées, à l'effet, repérable,
motivent encore l'action collective''.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre tradução de: "Il
permet de combler rapidement et à bon compte le décalage entre les
aspirations et les possibilités en assurant une forme mineure de la
notoriété impartie aux grands savants et aux intellectuels, et il
peut même, à un certain stade de l'évolution de l'institution
vers l'hétéronomie, devenir une voie de promotion à
l'intérieur même de l'institution''.
![[*]](../_img/footnote.gif)
- Livre
tradução de : "Le secteur de la communication des années 80 est
en partie dominé par ces anciens "gauchistes'' qui se sont établis
non plus dans les usines, mais dans des entreprises ou éditoriales qui
dessinent une nouvelle nébuleuse, constituée par Actuel, Libération, L'autre Journal, Quai Voltaire ou Le Promeneur''.
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